Meio século de trabalho por aposentadoria integral: Entenda proposta de reforma da Previdência

Matéria da BBC Brasil publicada no portal UOL em 07/12/2016

Os brasileiros vão precisar trabalhar por mais tempo para garantir a aposentadoria.

Esse foi o recado principal do governo ao detalhar nesta terça a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que inclui uma reforma da Previdência Social.

O texto foi enviado na segunda à noite ao Congresso, onde precisa ser aprovado. Segundo o presidente Michel Temer, as novas regras vão ajudar a manter a sustentabilidade das contas públicas diante de um buraco crescente do setor previdenciário.

Entre as principais alterações estão o tempo mínimo de contribuição à Previdência, que passa de 15 anos para 25 anos, e a idade mínima de aposentadoria para homens e mulheres, fixada em 65 anos. Mudam também as normas para a pensão por morte e aposentadoria rural.

Diante de tantas modificações propostas, muitos se perguntam: elas são muito duras ou estão dentro de um padrão razoável?

Especialistas entrevistados pela BBC Brasil dividem-se sobre o tema. Parte deles considera que os 65 anos representam um limite excessivo para um país em desenvolvimento, onde a expectativa de vida não é das mais altas. Outros, no entanto, argumentam que grandes economias já tinham adotado uma idade mínima –e que o Brasil demorou a fazê-lo.

Conheça abaixo os principais pontos da proposta e as análises sobre ela.

Idade mínima e tempo de contribuição

Hoje, os brasileiros podem se aposentar por idade ou por tempo de contribuição.

No primeiro caso, os homens precisam ter 65 anos e mulheres, 60 –ambos devem ter contribuído por pelo menos 15 anos. No segundo, não há idade mínima exigida e basta que homens tenham contribuído por 35 anos e mulheres, 30.

Com a reforma, o tempo mínimo de contribuição passa para 25 anos e o de aposentadoria, para 65. Os fatores, portanto, passam a ser conjuntos: é preciso preencher os dois requisitos para receber o benefício.

Nesses termos, quem se aposentasse receberia 76% da média dos salários de contribuição, acrescidos de um ponto percentual para cada ano de contribuição. Para chegar a 100% desse valor, sempre respeitando o teto de R$ 5.189 do INSS, uma pessoa teria que trabalhar 49 anos.

O professor de economia da FEA-USP José Roberto Savoia considera tais condições excessivas. Ele diz que em países com expectativas de vida mais altas, como Alemanha e França, é possível chegar aos 100% da média de contribuições em 43 anos.

A diferença fica ainda mais gritante quando são comparadas as expectativas de vida ao nascer. Na Alemanha, por exemplo, a dos homens é de 77 anos. No Brasil, o número fica em 71,9.

“Quase 50 anos é muito puxado para a realidade brasileira. (Com as novas regras), se alguém começa a trabalhar aos 18 anos, tem que ir até os 68 para ter o benefício integral.”

De acordo com Savoia, muitos dos que conseguem um emprego cedo não contribuem por tanto tempo porque ficam, em algum momento, fora do mercado formal. Hoje, essas pessoas, normalmente de classes mais baixas, se aposentam por idade –aos 65 anos para homens e 60 para mulheres, e 15 anos de contribuição. Com as novas regras, precisarão comprovar os 25 anos de contribuição.

Além da informalidade, a proposta de reforma não levou em conta outras transformações do mercado de trabalho, diz Jorge Félix, professor convidado da USP e autor de vários livros sobre o assunto.

Ela afirma que, para reduzir os custos, muitas empresas estão cortando os salários mais altos, demitindo pessoas com mais de 40 anos, que não conseguem voltar ao mercado e param de contribuir.

Félix também cita a precarização das vagas, fazendo com que muitos brasileiros não tenham a carteira a assinada e também parem de contribuir para a Previdência.

“A idade mínima penaliza os mais pobres, que começaram a trabalhar mais cedo sem registro e não podem comprovar os 25 anos. E também a geração Y, que já está sofrendo com a fragilização do mercado. Vamos criar um exército de pessoas que não vão conseguir se aposentar.”

Por outro lado, os 65 anos são considerados “bem razoáveis” pelo professor de economia da FGV e PUC-SP Nelson Marconi.

Ele diz que, com os novos padrões, o governo vai privilegiar quem entra mais cedo no mercado. Segundo o professor, cria-se um incentivo para que as próximas gerações comecem a contribuir quando jovens.

“Alongar o período de contribuição é necessário, porque a população está envelhecendo.”

Na mesma linha, o professor de Contabilidade da USP Luís Eduardo Afonso afirma que a mesma idade mínima é usada em outros países da América Latina e Europa, e acrescenta que, dada a situação das contas públicas, o governo demorou para sugerir a medida.

Ele elogia o aumento de 1% no valor do benefício a cada ano de contribuição.

“É um incentivo para que os brasileiros adiem a aposentadoria, o que dá um alívio para o sistema. A importância (de contribuir) vai ficar mais clara na cabeça das pessoas.”

Ele concorda que os mais pobres serão afetados, mas diz que apenas no médio prazo.

“É provável que um grupo que conseguiria comprovar os 15 anos de contribuição (na regra atual) vai ter que trabalhar mais para comprovar o período adicional.”

Segundo Afonso, os brasileiros de renda mais alta –que hoje entram no mercado cedo, se aposentam por tempo de contribuição (35 para homens e 30 para mulheres) e normalmente param de trabalhar aos 50 e poucos anos– serão os mais prejudicados.

No novo cenário, terão que esperar até os 65 anos.

Regras de transição

Se aprovadas no Congresso e sancionadas por Temer, as novas regras não valerão para todos os brasileiros. Homens que têm mais de 50 anos e mulheres com mais de 45 entram no grupo de transição, que seguirá normas intermediárias.

Eles pagarão um “pedágio” de 50% do tempo de contribuição que ainda fala na regra atual: a fórmula 85/95. Ela fixa a idade de acesso à aposentadoria com base na soma da idade com o tempo de contribuição: 85 para mulheres e 95 para homens.

Para obter o benefício pelo teto do INSS, também segue valendo a regra atual, ou seja, pela média dos maiores salários.

Nas regras atuais, uma mulher de 50 anos e 33 de contribuição soma 83 pontos e precisaria de mais dois anos para se aposentar. Com o “pedágio” de 50%, o tempo aumentaria para três anos.

Para o professor Jorge Felix, a transição vale para um conjunto muito restrito, que está à beira de se aposentar com todos os anos de contribuição comprovados. Mas voltaria a excluir os informais ou os desempregados que deixaram de contribuir –e perderam anos nessa conta.

“Uma parcela minúscula teve tanta estabilidade para se beneficiar dessa condição.”

Já Luís Eduardo Afonso, da USP, vê padrões que poderiam ser ainda mais rigorosos e diz que o Brasil já fez coisas parecidas em outras tentativas de reforma.

“Talvez o governo tenha colocado uma transição menos dura do que gostaria, até pelas reações que poderia causar. Essa está no meio termo.”

Servidores públicos e militares

Se aprovada, a reforma da Previdência vai equiparar os direitos e benefícios de trabalhadores do setor privado e do público.

No caso dos servidores públicos com menos de 50 anos (homens) ou 45 anos (mulheres), e que ingressaram no serviço antes de 2003, será extinta a chamada “integralidade”, o recebimento da aposentadoria com base no salário integral do servidor.

Também está previsto o fim da “paridade”, que faz com que o benefício dos aposentados acompanhe os reajustes dados aos servidores ativos.

Segundo os entrevistados, essas mudanças são importantes para colocar todos os brasileiros no mesmo patamar, pelo menos no aspecto previdenciário.

Os rombos da previdência do setor público e do INSS –onde estão os profissionais da iniciativa privada– são semelhantes, mas o primeiro tem menos gente e salários muito mais altos.

Apesar de aprovarem a medida, os economistas acham que elas não terão um impacto tão grande no curto prazo.

“Para o futuro é perfeito, porque está dizendo que não vai ter diferenciação, mas para o presente continua o deficit.”

Eles questionam também o fato de militares, que correspondem a 45% do rombo da Previdência dos servidores da União, terem ficado de fora. Só em 2015, o deficit previdenciário dos servidores, incluindo militares aposentados e pensionistas, chegou a R$ 72,5 bilhões.

Os economistas apontam razões políticas, como o forte lobby que o grupo tem no Congresso, para o governo evitar as medidas.

Reportagem Ingrid Fagundez (São Paulo)

 

16. dezembro 2016 por Jorge Félix
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Entre os homens idosos no mercado de trabalho, 51,6% são aposentados

Taxa subiu com envelhecimento da população do país

Publicado no jornal O Globo, em 24 de outubro de 2016, repórter Cassia Almeida

Aposentar-se não significa parar de trabalhar. Dos idosos de 60 anos ou mais que ainda permanecem no mercado de trabalho, 51,6% dos homens e 44,4% das mulheres são aposentados. Um avanço considerável sobre os números de 1983, quando foi instituída a Política Nacional do Idoso. Naquele ano, as proporções eram de 39,7% para os homens e 17,5% para as mulheres, o que atesta a maciça entrada feminina no mercado de trabalho nos últimos 33 anos, além do envelhecimento da população e do aumento da formalização. A avaliação de 32 pesquisadores sobre os impactos da política que deu origem ao Estatuto do Idoso é exposta no livro “Política Nacional do Idoso, velhas e novas questões”, editado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e lançado na última sexta-feira.

— Isso mostra que boa parte dos aposentados continua trabalhando e que pode ser adotada a idade mínima. Em média, os homens ficam mais quatro anos trabalhando após a aposentadoria. O problema é ver em que condições. Não se pode dar uma canetada e virar a página. É preciso pensar em políticas conjuntas, ver o papel das empresas para vencer o preconceito contra o idoso, melhorar a mobilidade urbana. Se um jovem já sofre de ficar mais de duas horas no transporte, imagina o idoso. Tem que se pensar em políticas de saúde, para diminuir o absenteísmo, e educacionais, para superar o atraso tecnológico. O trabalho é importante para a integração social, principalmente para os homens — afirma a economista Ana Amélia Camarano, uma das organizadoras do livro, juntamente com Alexandre de Oliveira Alcântara e Karla Cristina Giacomin.

A cobertura maior da Previdência Social depois da Constituição Federal de 1988 — que instituiu a aposentadoria rural e o Benefício de Prestação Continuada para os idosos e deficientes pobres, ambos sem necessidade de contribuição — também explica essa participação maior dos aposentados no mercado de trabalho.

Essa população de trabalhadores idosos conseguiu vencer o preconceito que os vem expulsando cada vez mais cedo do mercado, ressalta Jorge Felix, pesquisador do grupo Políticas para o Desenvolvimento Humano do Programa de Estudos Pós-Graduados em Economia Política, da PUC-SP. É dele o capítulo sobre o idoso e o mercado de trabalho.

— Até pouco tempo atrás, trabalhar depois da aposentadoria era uma jabuticaba brasileira. Em poucos países é permitido se aposentar ainda trabalhando, mas, com a crise na Europa, isso passou a acontecer em alguns países, onde os aposentados foram obrigados a voltar ao mercado. O problema é que, no mundo inteiro, os trabalhadores estão sendo expulsos cada vez mais cedo.

A idade mínima para aposentadoria tem subido em países desenvolvidos para 62, 63 anos, mas não resolveu o problema do financiamento do sistema previdenciário, diz Felix. No Brasil, estuda-se estabelecer 65 anos como idade mínima, que não é exigida na hora de requerer o benefício.

— O mercado não absorve os trabalhadores em quantidade suficiente depois dos 45 anos. Antes, o mercado expulsava aos 55, depois baixou para 50, e agora é com 45 anos. As reformas de Previdência estão sendo debatidas descoladas das metamorfoses que houve no mercado de trabalho — diz Felix.

Para o estudioso, o trabalhador fica mais vulnerável na segunda metade da carreira. Quando acontece depois do 40 anos, a demissão leva à informalidade, o que o impede de atender às condições para se aposentar, diz Felix. Na força de trabalho idosa masculina, 43% são conta própria, e 14,3% são não remunerados. Quase 60% estão em atividades sem proteção social. Entre as mulheres, 23,6% são não remuneradas.

19. novembro 2016 por Jorge Félix
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Em casa, com meu robô

ABC Photo Archives/ABC via Getty Images

A robótica será no século XXI o que a indústria automotiva foi para a economia do século XX. Os robôs substituirão os automóveis no fluxo do comércio internacional. Tais afirmações podem parecer exageradas neste momento em que é difícil encontrar um robô fora das fábricas, sobretudo as de carros, onde essas máquinas revolucionaram as linhas de produção e passaram, nas últimas décadas, a desempenhar as tarefas de humanos. Alguns fatores, porém, corroboram essa virtual certeza de dez entre dez pesquisadores da ciência da automação. Um deles, o mais óbvio, é a tendência à ampliação – praticamente sem limite – da produtividade da economia, que empurrou a manufatura para a robotização. Outro que se destaca é o envelhecimento populacional.

Lea Mina Ralli (acima), em sua casa, em Roma, enquanto esperava ser atendida pelo robô que ela chamava de Mr. Robin (no fundo) durante a fase de pesquisas do projeto GiraffPlus

A despeito de hoje ser mais fácil encontrar na vizinhança um carro sem motorista do que um robô acompanhando uma pessoa idosa, a demanda por cuidados de longa duração tem sido um dos maiores estímulos para a indústria mundial de robótica e já provoca uma corrida entre os países para ver quem colocará no mercado o primeiro modelo capaz de atender com mais eficiência às necessidades domésticas desse segmento da população. A robótica focada no envelhecimento cresce a um ritmo tão acelerado que a Comissão Europeia começa a discutir uma lei específica (“EU Robo-Law”) para determinar quais tarefas poderão ser transferidas das “mãos quentes” (humanas) para as “mãos frias” (máquinas).

Apesar da crise econômica persistente e da propagada “estagnação secular”, as projeções de vendas de robôs para finalidades domésticas nos próximos dois anos cresceram 54% de 2013 para 2014. De acordo com o mais recente relatório da International Federation for Robotics, estima-se que, entre 2014 e 2017, se aproximem de 24 milhões de unidades apenas as vendas de “robôs cuidadores” ou “companheiros”. Esses dados somam-se à variedade de modelos que chegam continuamente ao mercado, especialmente no setor de serviços, com máquinas humanoides que já podem ser vistas em plena atividade em bancos, recepções de hotéis e hospitais de muitos países.

Pesquisadores europeus começam a desenhar uma rede colaborativa para promover o intercâmbio de informações e acelerar o avanço da inovação em robótica, em regime de “open source”, da concepção criativa à produção industrial. A iniciativa ganhou corpo entre participantes de conferência realizada em Lyon, na França, como parte da Innorobo, evento destinado à apresentação das mais recentes conquistas da robótica e discussão de perspectivas.

AP

Com 1,40 m e pouco mais de 40 quilos, o robô Romeo, da japonesa Aldebaran, feito de fibra de carbono e borracha, anda, enxerga em três dimensões, ouve e fala

Há um mês, o modelo Pepper, desenvolvido pela Aldebaran Robotics, líder mundial em robôs humanoides, vendeu mil exemplares, segundo informação do fabricante, em seu primeiro minuto de comercialização pela internet. Pepper é um robô “social” que reconhece e reage a emoções da pessoa com quem conversa.

Empresa do grupo japonês SoftBank Group, a Aldebaran, com sede em Paris, é a fabricante do modelo mais conhecido no Brasil, o NAO, com 58 cm de altura, que foi usado, em 2012, na novela “Morde e Assopra”, da Rede Globo. Mais de 5 mil unidades já foram vendidas ou alugadas, em vários países.

Esses modelos são considerados por pesquisadores mais como brinquedos, não como companheiros aptos a realizar tarefas domésticas ou monitoramento de saúde e bem-estar. Mas a empresa já desenvolve o Romeo e o NAOqi com finalidades mais específicas de atender idosos, para competir com o Care-o-Bot, da alemã Fraunhofer IPA, (em plena atuação em dois hotéis nos Estados Unidos, como camareiro), e o americano PR2, da Wllow Garage (Califórnia) cujo slogan é “ele frita uma omelete”. Com Romeo – 1,40 m, o tamanho de uma criança de oito anos, e um pouco mais de 40 kg – a Aldebaran pretende alcançar a liderança nas áreas de assistência a idosos e serviços pessoais. Seu corpo, feito de fibra de carbono e borracha, foi projetado para evitar o risco de ferir a pessoa. Ele anda, enxerga o ambiente em três dimensões, ouve e fala. Os primeiros testes em condições de mundo real devem ser realizados em 2016. O objetivo final é ter unidades prontas para uso em casas de repouso em 2017 ou 2019.

“Esse mercado vai crescer substancialmente nos próximos 20 anos”, diz o relatório “Growing the Silver Economy in Europe” (“Estimulando a economia da longevidade na Europa”), publicado pela Comissão Europeia como base para a Primeira Conferência de Cúpula Europeia sobre Inovação para o Envelhecimento Ativo e Saudável, realizada em Bruxelas, em março. Uma das conclusões do painel “Como o avanço tecnológico pode oferecer a resposta da Europa às necessidades de uma sociedade envelhecida?” é que a Itália surge como um “caso de excelência”. Um dos responsáveis por esse protagonismo é o projeto italiano, financiado pela União Europeia, chamado GiraffPlus, cuja fase de pesquisas foi encerrada em dezembro de 2014, com perspectivas de comercialização para este ano. A Swedish SME está em busca de financiamento para a produção nos Estados Unidos, Europa e Canadá.

O GiraffPlus começou em 2012, com a instalação de protótipos em seis casas. Em uma segunda etapa, foi enviado para mais nove idosos voluntários. O Giraff, nome do robô, não tem aparência humanoide. É uma tela sobre rodas, com um longo “pescoço”, por meio da qual o idoso interage com médicos e familiares. O ambiente é monitorado por sensores de queda, fogo, água. Seu diferencial é permitir algum tipo de cuidado de saúde a distância, como medir a pressão arterial ou taxas de glicose. Conectado à internet, o Giraff envia informações on-line para destinatários programados.

O robô desenvolvido no IPA Institute, de Stuttgart, na Alemanha, pega e traz objetos, e abre portas. Aprende tarefas e pode ser operado a distância
“O projeto GiraffPlus é destinado a desenvolver um sistema [o robô] que contribui para enfrentar o desafio geral de prolongar a independência e a autonomia do idoso e promover uma sociedade mais saudável”, disse ao Valor o professor Andrea Orlandini, coordenador do projeto no Instituto de Ciência Cognitiva e Tecnologia do Conselho Nacional de Pesquisas da Itália.

Reuters

De acordo com Orlandini, os investimentos em projetos de robôs companheiros justificam-se porque, quanto mais a sociedade envelhece, mais forte é a tendência para o “envelhecimento em casa”. No Brasil, por exemplo, calcula-se que apenas pouco mais de 1% da população idosa vive em instituições de longa permanência. “A maioria dos idosos deseja permanecer em suas casas o maior tempo possível, a fim de levar uma vida social mais rica e manter hábitos estabelecidos”, afirmou Orlandini. “Do ponto de vista econômico, também é importante. O custo dos cuidados em casa é quase sempre muito menor que o de cuidados em residenciais de idosos.” Relatórios da Comissão Europeia citam exemplos de países que investiram em muitos tipos de tecnologia assistiva e obtiveram resultados positivos no orçamento do setor de saúde. Ou seja, os robôs são considerados elementos relevantes na formulação de políticas públicas voltadas para a sustentabilidade do “welfare state” europeu, sempre ameaçado pela dinâmica econômica do século XXI.

“Os robôs já estão maciçamente presentes no ambiente industrial, mas a ascensão de robôs de serviço está só começando”, disse Orlandini. Ele não tem dúvida de que a barreira do custo dessas máquinas será rapidamente derrubada, para alcançar um mercado de massa. No caso do Giraff, uma vez obtidos os recursos para a comercialização, a expectativa é de um custo de menos de € 500 mensais para o aluguel, além de €1 mil pela instalação customizada do software.

Orlandini sugere, no entanto, que famílias e governos avaliem o custo relativo dos robôs nos orçamentos domiciliares e nos orçamentos públicos. Idosos que participaram do projeto GiraffPlus apresentaram melhora na qualidade de vida e houve economia de custos comparada, ou seja, em caso de ausência do robô. “Por exemplo, o custo médio de uma internação hospitalar de uma pessoa acima de 65 anos, nos Estados Unidos, é de €18 mil. Se for possível evitar uma internação ou reinternação, com melhores protocolos clínicos produzidos em casa [graças ao uso de robô] como adesão à medicação, acompanhamento biométrico, fisioterapia, outros cuidados pós-agudos etc., o serviço seria compensador por vários anos.”

A Comissão Europeia começa a discutir uma lei específica para determinar quais tarefas poderão ser transferidas de humanos para robôs

Orlandini cita dois casos que ocorreram durante as pesquisas. Em um deles, o Giraff foi eficiente para acionar em poucos minutos o filho de uma idosa que tivera uma queda em casa. Pode-se dizer que serviços de teleassistência, que já existem em larga escala, inclusive no Brasil, também atuam com qualidade para esse fim. No entanto, o Giraff faz mais: em outro voluntário, detectou a ocorrência de alta de pressão devido ao uso de determinado medicamento, logo substituído pelo médico.

E sempre haverá a vantagem da diferença de custos. Calcula-se que possa chegar a US$ 13 mil a remuneração de um cuidador em tempo integral nos Estados Unidos. No Brasil, esse profissional pode custar até R$ 8 mil. Uma das explicações para tal nível de remuneração é a pouca oferta desse tipo de profissional. Na Europa, tenta-se suprir a carência com imigrantes. Robôs companheiros poderão absorver parte das tarefas de cuidadores, o que permitirá menores gastos na contratação desse tipo de serviço.

Outro mercado potencial é o de instituições para longa permanência de idosos e hospitais. Atualmente, os hospitais já são clientes de uma série de instrumentos mecânicos auxiliares. Por exemplo, aparelhos para levantar os pacientes das camas. Em cenários para um futuro próximo, hospitais de alto padrão tecnológico disporiam de robôs companheiros – perspectiva que amplia as possibilidades do mercado global desses equipamentos.

A Comissão Europeia estabeleceu diretrizes para o desenvolvimento da robótica, domótica (casas inteligentes), teleassistência e outros setores da tecnologia da informação e comunicação, com o objetivo de aproveitar o forte potencial de suas empresas para se tornarem líderes globais no mercado de tecnologia para o envelhecimento.

O robô do Fraunhofer Institute, de Stuttgart, na Alemanha, segura um copo em sessão de treinamento: ajuda em tarefas como pegar e servir bebidas ou esvaziar recipientes de lixoAP
O avanço de pesquisas e adoção de novas ferramentas para cuidados assistenciais criou um profícuo campo de estudo na academia, a gerontecnologia. O termo, cada vez mais usual no debate sobre políticas públicas para os idosos, surgiu na década de 1990, quando os europeus criaram a International Society for Gerontechnology. Naquele tempo, porém, a tecnologia assistiva estava restrita à área da ergonometria para idosos dependentes ou simples alarmes. A gerontecnologia, atualmente, diz respeito à “internet das coisas”, “internet of you” e, principalmente, à robótica.

“Certamente, existe um papel para a tecnologia nas residências com idosos e nas instituições. Acredito que possa ajudar nos cuidados assistenciais, pois, há poucos recursos públicos”, disse ao Valor a professora Anthea Tinker, do Instituto de Gerontologia do King’s College London, especialista em aplicação da tecnologia para idosos.

 

O debate ético sobre o uso do robô para cuidados assistenciais mobiliza gerontólogos, psicólogos e profissionais de saúde, principalmente. Afinal, até onde o robô pode ser usado? As famílias, legalmente responsáveis por cuidar dos idosos, poderão delegar essa tarefa a uma máquina? Essas questões éticas levaram Tinker a se especializar na gerontecnologia. “A tecnologia tem um papel, mas nunca substituirá um cuidador”, afirma. Em seu texto “Technology and Ageing”, ela diz ainda que “políticas públicas não podem supor que a disponibilidade de familiares para o cuidado reduzirá a demanda por recursos para a área de saúde ou serviços sociais”. Entre esses investimentos necessários, a serem assumidos pelo setor público está, certamente, na opinião de Anthea, a tecnologia.

Orlandini concorda: “O sistema GiraffPlus visa apoiar os cuidadores humanos, ajudando-os a ser mais eficazes no desempenho de suas funções. O robô não é pensado para substituir os seres humanos cuidadores, mas como um meio para facilitar suas atividades”.

Esse sentido de auxiliar foi bem captado por um dos principais concorrentes do Giraff, o robô da Toyota, apresentado no fim de julho. O modelo, que recebeu o nome de Human Support Robot (HSR), tem funções bastante parecidas com as do Giraff. A especificidade do HSR, que deverá disputar o mercado internacional com robôs europeus, é que foi pensado para os minúsculos apartamentos do Japão, onde, de acordo com a ONU, 40% da população terão 65 anos ou mais em 2060.

Diante do ritmo acelerado de envelhecimento da população brasileira, atualmente com 13% de pessoas com 60 anos ou mais – a projeção para 2040 é de que aqueles com 80 anos ou mais passarão de 1,5% (censo de 2010) para 7% (ou 13,7 milhões) – uma pergunta é inevitável: qual a chance de o Brasil entrar nessa disputa comercial na indústria da chamada “robótica social”?

“O Brasil não tem uma cultura de inovação e, portanto, não está participando dessa revolução. Mas tem potencial”, responde o professor Flavio Tonidandel, coordenador da área de ciência da computação da Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Segundo ele, um dos sinais positivos é a Olimpíada Brasileira de Robótica, que compreende, em sua modalidade prática, o desafio de construir robôs autônomos. Mais de 10 mil alunos em todo o Brasil participaram do evento este ano. “Se essa meninada mantiver o pique, fizer universidade em área tecnológica, pode até, em futuro de médio prazo, criar empresas de robótica que venham a competir com as empresas de outros países. Estamos começando a ter know-how na área. Se conseguirmos passar bem esse conhecimento aos alunos, formaremos gerações de egressos com capacidade de criar robôs humanoides no país.”

Há outros obstáculos. “Qualquer modelo de que precisamos, mesmo comprovando que se destina a pesquisa científica, é taxado como brinquedo e o custo fica impraticável. Quem fica atrasado no mundo somos nós”, afirma Andrey Araújo Masiero, pesquisador da FEI. O modelo NAO, por exemplo, custa US$ 9,5 mil no exterior, mas, com os impostos para importação, seu preço sobe para R$ 70 mil.

A Toyota investe num robô que tem funções bastante parecidas com as do Giraff italiano, pensado para uso nos minúsculos apartamentos das cidades japonesas
Esse empecilho alfandegário tem confinado o Brasil ao papel de “montador” de robôs, isto é, o campo de pesquisa mais desenvolvido aqui é o de aperfeiçoamento de modelos já existentes. Isso explica um pouco porque as universidades brasileiras estão num bom nível no desenvolvimento de próteses mecânicas, os chamados “robôs cooperativos”, como é o caso da USP de São Carlos, em São Paulo.

Há também dificuldades culturais. “O mundo ainda não está preparado para os robôs humanoides”, acredita Tonidandel. “Por isso, os robôs companheiros são a onda do momento. Aceitamos melhor os robôs mais simples, que cuidam de coisas simples do nosso dia-a-dia, que podem cuidar de idosos em casa. Não estamos preparados ainda para robôs autossuficientes. Quem sabe, algum dia.”

Em seu doutorado, Masiero estuda a relação humano-robô, objeto fundamental para a evolução das pesquisas para aplicação das máquinas aos cuidados de idosos. “A primeira reação das pessoas é de medo em relação à possibilidade de movimentos bruscos do robô, quão forte pode tocá-las. Depende muito da aparência, altura. Há muito receio num primeiro momento.” É por isso que a indústria busca o formato mais amigável e os primeiro robôs têm cara de brinquedo. Não à toa, encantam as crianças, como mostra uma cena do filme “Frank e o Robô”, de Jake Schreier. O ator Frank Langella vive um idoso que, na ausência dos filhos, passa a ser cuidado por um robô. Sua primeira reação é de repulsa. Em pouco tempo, porém, desenvolve uma relação amistosa, de cumplicidade e sentimento com a máquina.

“Vi o filme e gostei, apesar de não ser muito realista, porque os robôs ainda não estão aptos para tantas tarefas”, diz Orlandini. “No entanto, um ponto foi marcante e realista: as pessoas idosas, de fato, tendem a interagir com o robô como se fossem humanos”.

No filme, é estabelecida uma conexão de empatia. Foi o que também ocorreu com voluntários do GiraffPluss. Orlandini cita o caso de Nonna [Vovó] Lea, a blogueira italiana Lea Mina Ralli, de 94 anos, que testou o robô por meses e ficou famosa depois de muitas entrevistas e da gravação do vídeo promocional do projeto.

Orlandini identifica essa “humanização” em palavras de Lea: “O projeto se chama GiraffPlus, mas eu o chamo de Mister Robin. A primeira vez que vi o robô, pensei que era como um mordomo inglês me ajudando e me trazendo coisas”.

A frase, entende Orlandini, mostra o que é a expectativa dos idosos em relação aos robôs. Embora Frank tenha recebido muito mais de seu eficiente “amigo” na ficção, ele não lhe deu um nome humano. Mas é possível afirmar que sua relação com a máquina foi tão próxima quanto a da convivência entre Robin e Nonna Lea – que morreu no início deste ano.

Por Jorge Felix, publicado no jornal Valor Econômico em 04/09/2014.

07. julho 2016 por Jorge Félix
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Questão urbana e envelhecimento populacional: breves conexões entre o direito à cidade e o idoso no mercado de trabalho

Convido a todos para lerem o meu mais recente artigo acadêmico, em autoria conjunta com a Profª Drª Maura P. Bicudo Véras, publicado na edição atual da revista acadêmica Cadernos Metrópole, do Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.

The urban question and population aging: brief connections between the right to the city and the elderly in the labor market

Leia aqui

 

23. junho 2016 por Jorge Félix
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Silver economy: opportunities and challenges to Brazil adopt the European Union’s strategy

Convido a todos para lerem o meu mais recente artigo acadêmico, publicado, em Viena, no Innovation: The European Journal of Social Science Research. Clique aqui.

15. abril 2016 por Jorge Félix
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