Em casa, com meu robô

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A robótica será no século XXI o que a indústria automotiva foi para a economia do século XX. Os robôs substituirão os automóveis no fluxo do comércio internacional. Tais afirmações podem parecer exageradas neste momento em que é difícil encontrar um robô fora das fábricas, sobretudo as de carros, onde essas máquinas revolucionaram as linhas de produção e passaram, nas últimas décadas, a desempenhar as tarefas de humanos. Alguns fatores, porém, corroboram essa virtual certeza de dez entre dez pesquisadores da ciência da automação. Um deles, o mais óbvio, é a tendência à ampliação – praticamente sem limite – da produtividade da economia, que empurrou a manufatura para a robotização. Outro que se destaca é o envelhecimento populacional.

Lea Mina Ralli (acima), em sua casa, em Roma, enquanto esperava ser atendida pelo robô que ela chamava de Mr. Robin (no fundo) durante a fase de pesquisas do projeto GiraffPlus

A despeito de hoje ser mais fácil encontrar na vizinhança um carro sem motorista do que um robô acompanhando uma pessoa idosa, a demanda por cuidados de longa duração tem sido um dos maiores estímulos para a indústria mundial de robótica e já provoca uma corrida entre os países para ver quem colocará no mercado o primeiro modelo capaz de atender com mais eficiência às necessidades domésticas desse segmento da população. A robótica focada no envelhecimento cresce a um ritmo tão acelerado que a Comissão Europeia começa a discutir uma lei específica (“EU Robo-Law”) para determinar quais tarefas poderão ser transferidas das “mãos quentes” (humanas) para as “mãos frias” (máquinas).

Apesar da crise econômica persistente e da propagada “estagnação secular”, as projeções de vendas de robôs para finalidades domésticas nos próximos dois anos cresceram 54% de 2013 para 2014. De acordo com o mais recente relatório da International Federation for Robotics, estima-se que, entre 2014 e 2017, se aproximem de 24 milhões de unidades apenas as vendas de “robôs cuidadores” ou “companheiros”. Esses dados somam-se à variedade de modelos que chegam continuamente ao mercado, especialmente no setor de serviços, com máquinas humanoides que já podem ser vistas em plena atividade em bancos, recepções de hotéis e hospitais de muitos países.

Pesquisadores europeus começam a desenhar uma rede colaborativa para promover o intercâmbio de informações e acelerar o avanço da inovação em robótica, em regime de “open source”, da concepção criativa à produção industrial. A iniciativa ganhou corpo entre participantes de conferência realizada em Lyon, na França, como parte da Innorobo, evento destinado à apresentação das mais recentes conquistas da robótica e discussão de perspectivas.

AP

Com 1,40 m e pouco mais de 40 quilos, o robô Romeo, da japonesa Aldebaran, feito de fibra de carbono e borracha, anda, enxerga em três dimensões, ouve e fala

Há um mês, o modelo Pepper, desenvolvido pela Aldebaran Robotics, líder mundial em robôs humanoides, vendeu mil exemplares, segundo informação do fabricante, em seu primeiro minuto de comercialização pela internet. Pepper é um robô “social” que reconhece e reage a emoções da pessoa com quem conversa.

Empresa do grupo japonês SoftBank Group, a Aldebaran, com sede em Paris, é a fabricante do modelo mais conhecido no Brasil, o NAO, com 58 cm de altura, que foi usado, em 2012, na novela “Morde e Assopra”, da Rede Globo. Mais de 5 mil unidades já foram vendidas ou alugadas, em vários países.

Esses modelos são considerados por pesquisadores mais como brinquedos, não como companheiros aptos a realizar tarefas domésticas ou monitoramento de saúde e bem-estar. Mas a empresa já desenvolve o Romeo e o NAOqi com finalidades mais específicas de atender idosos, para competir com o Care-o-Bot, da alemã Fraunhofer IPA, (em plena atuação em dois hotéis nos Estados Unidos, como camareiro), e o americano PR2, da Wllow Garage (Califórnia) cujo slogan é “ele frita uma omelete”. Com Romeo – 1,40 m, o tamanho de uma criança de oito anos, e um pouco mais de 40 kg – a Aldebaran pretende alcançar a liderança nas áreas de assistência a idosos e serviços pessoais. Seu corpo, feito de fibra de carbono e borracha, foi projetado para evitar o risco de ferir a pessoa. Ele anda, enxerga o ambiente em três dimensões, ouve e fala. Os primeiros testes em condições de mundo real devem ser realizados em 2016. O objetivo final é ter unidades prontas para uso em casas de repouso em 2017 ou 2019.

“Esse mercado vai crescer substancialmente nos próximos 20 anos”, diz o relatório “Growing the Silver Economy in Europe” (“Estimulando a economia da longevidade na Europa”), publicado pela Comissão Europeia como base para a Primeira Conferência de Cúpula Europeia sobre Inovação para o Envelhecimento Ativo e Saudável, realizada em Bruxelas, em março. Uma das conclusões do painel “Como o avanço tecnológico pode oferecer a resposta da Europa às necessidades de uma sociedade envelhecida?” é que a Itália surge como um “caso de excelência”. Um dos responsáveis por esse protagonismo é o projeto italiano, financiado pela União Europeia, chamado GiraffPlus, cuja fase de pesquisas foi encerrada em dezembro de 2014, com perspectivas de comercialização para este ano. A Swedish SME está em busca de financiamento para a produção nos Estados Unidos, Europa e Canadá.

O GiraffPlus começou em 2012, com a instalação de protótipos em seis casas. Em uma segunda etapa, foi enviado para mais nove idosos voluntários. O Giraff, nome do robô, não tem aparência humanoide. É uma tela sobre rodas, com um longo “pescoço”, por meio da qual o idoso interage com médicos e familiares. O ambiente é monitorado por sensores de queda, fogo, água. Seu diferencial é permitir algum tipo de cuidado de saúde a distância, como medir a pressão arterial ou taxas de glicose. Conectado à internet, o Giraff envia informações on-line para destinatários programados.

O robô desenvolvido no IPA Institute, de Stuttgart, na Alemanha, pega e traz objetos, e abre portas. Aprende tarefas e pode ser operado a distância
“O projeto GiraffPlus é destinado a desenvolver um sistema [o robô] que contribui para enfrentar o desafio geral de prolongar a independência e a autonomia do idoso e promover uma sociedade mais saudável”, disse ao Valor o professor Andrea Orlandini, coordenador do projeto no Instituto de Ciência Cognitiva e Tecnologia do Conselho Nacional de Pesquisas da Itália.

Reuters

De acordo com Orlandini, os investimentos em projetos de robôs companheiros justificam-se porque, quanto mais a sociedade envelhece, mais forte é a tendência para o “envelhecimento em casa”. No Brasil, por exemplo, calcula-se que apenas pouco mais de 1% da população idosa vive em instituições de longa permanência. “A maioria dos idosos deseja permanecer em suas casas o maior tempo possível, a fim de levar uma vida social mais rica e manter hábitos estabelecidos”, afirmou Orlandini. “Do ponto de vista econômico, também é importante. O custo dos cuidados em casa é quase sempre muito menor que o de cuidados em residenciais de idosos.” Relatórios da Comissão Europeia citam exemplos de países que investiram em muitos tipos de tecnologia assistiva e obtiveram resultados positivos no orçamento do setor de saúde. Ou seja, os robôs são considerados elementos relevantes na formulação de políticas públicas voltadas para a sustentabilidade do “welfare state” europeu, sempre ameaçado pela dinâmica econômica do século XXI.

“Os robôs já estão maciçamente presentes no ambiente industrial, mas a ascensão de robôs de serviço está só começando”, disse Orlandini. Ele não tem dúvida de que a barreira do custo dessas máquinas será rapidamente derrubada, para alcançar um mercado de massa. No caso do Giraff, uma vez obtidos os recursos para a comercialização, a expectativa é de um custo de menos de € 500 mensais para o aluguel, além de €1 mil pela instalação customizada do software.

Orlandini sugere, no entanto, que famílias e governos avaliem o custo relativo dos robôs nos orçamentos domiciliares e nos orçamentos públicos. Idosos que participaram do projeto GiraffPlus apresentaram melhora na qualidade de vida e houve economia de custos comparada, ou seja, em caso de ausência do robô. “Por exemplo, o custo médio de uma internação hospitalar de uma pessoa acima de 65 anos, nos Estados Unidos, é de €18 mil. Se for possível evitar uma internação ou reinternação, com melhores protocolos clínicos produzidos em casa [graças ao uso de robô] como adesão à medicação, acompanhamento biométrico, fisioterapia, outros cuidados pós-agudos etc., o serviço seria compensador por vários anos.”

A Comissão Europeia começa a discutir uma lei específica para determinar quais tarefas poderão ser transferidas de humanos para robôs

Orlandini cita dois casos que ocorreram durante as pesquisas. Em um deles, o Giraff foi eficiente para acionar em poucos minutos o filho de uma idosa que tivera uma queda em casa. Pode-se dizer que serviços de teleassistência, que já existem em larga escala, inclusive no Brasil, também atuam com qualidade para esse fim. No entanto, o Giraff faz mais: em outro voluntário, detectou a ocorrência de alta de pressão devido ao uso de determinado medicamento, logo substituído pelo médico.

E sempre haverá a vantagem da diferença de custos. Calcula-se que possa chegar a US$ 13 mil a remuneração de um cuidador em tempo integral nos Estados Unidos. No Brasil, esse profissional pode custar até R$ 8 mil. Uma das explicações para tal nível de remuneração é a pouca oferta desse tipo de profissional. Na Europa, tenta-se suprir a carência com imigrantes. Robôs companheiros poderão absorver parte das tarefas de cuidadores, o que permitirá menores gastos na contratação desse tipo de serviço.

Outro mercado potencial é o de instituições para longa permanência de idosos e hospitais. Atualmente, os hospitais já são clientes de uma série de instrumentos mecânicos auxiliares. Por exemplo, aparelhos para levantar os pacientes das camas. Em cenários para um futuro próximo, hospitais de alto padrão tecnológico disporiam de robôs companheiros – perspectiva que amplia as possibilidades do mercado global desses equipamentos.

A Comissão Europeia estabeleceu diretrizes para o desenvolvimento da robótica, domótica (casas inteligentes), teleassistência e outros setores da tecnologia da informação e comunicação, com o objetivo de aproveitar o forte potencial de suas empresas para se tornarem líderes globais no mercado de tecnologia para o envelhecimento.

O robô do Fraunhofer Institute, de Stuttgart, na Alemanha, segura um copo em sessão de treinamento: ajuda em tarefas como pegar e servir bebidas ou esvaziar recipientes de lixoAP
O avanço de pesquisas e adoção de novas ferramentas para cuidados assistenciais criou um profícuo campo de estudo na academia, a gerontecnologia. O termo, cada vez mais usual no debate sobre políticas públicas para os idosos, surgiu na década de 1990, quando os europeus criaram a International Society for Gerontechnology. Naquele tempo, porém, a tecnologia assistiva estava restrita à área da ergonometria para idosos dependentes ou simples alarmes. A gerontecnologia, atualmente, diz respeito à “internet das coisas”, “internet of you” e, principalmente, à robótica.

“Certamente, existe um papel para a tecnologia nas residências com idosos e nas instituições. Acredito que possa ajudar nos cuidados assistenciais, pois, há poucos recursos públicos”, disse ao Valor a professora Anthea Tinker, do Instituto de Gerontologia do King’s College London, especialista em aplicação da tecnologia para idosos.

 

O debate ético sobre o uso do robô para cuidados assistenciais mobiliza gerontólogos, psicólogos e profissionais de saúde, principalmente. Afinal, até onde o robô pode ser usado? As famílias, legalmente responsáveis por cuidar dos idosos, poderão delegar essa tarefa a uma máquina? Essas questões éticas levaram Tinker a se especializar na gerontecnologia. “A tecnologia tem um papel, mas nunca substituirá um cuidador”, afirma. Em seu texto “Technology and Ageing”, ela diz ainda que “políticas públicas não podem supor que a disponibilidade de familiares para o cuidado reduzirá a demanda por recursos para a área de saúde ou serviços sociais”. Entre esses investimentos necessários, a serem assumidos pelo setor público está, certamente, na opinião de Anthea, a tecnologia.

Orlandini concorda: “O sistema GiraffPlus visa apoiar os cuidadores humanos, ajudando-os a ser mais eficazes no desempenho de suas funções. O robô não é pensado para substituir os seres humanos cuidadores, mas como um meio para facilitar suas atividades”.

Esse sentido de auxiliar foi bem captado por um dos principais concorrentes do Giraff, o robô da Toyota, apresentado no fim de julho. O modelo, que recebeu o nome de Human Support Robot (HSR), tem funções bastante parecidas com as do Giraff. A especificidade do HSR, que deverá disputar o mercado internacional com robôs europeus, é que foi pensado para os minúsculos apartamentos do Japão, onde, de acordo com a ONU, 40% da população terão 65 anos ou mais em 2060.

Diante do ritmo acelerado de envelhecimento da população brasileira, atualmente com 13% de pessoas com 60 anos ou mais – a projeção para 2040 é de que aqueles com 80 anos ou mais passarão de 1,5% (censo de 2010) para 7% (ou 13,7 milhões) – uma pergunta é inevitável: qual a chance de o Brasil entrar nessa disputa comercial na indústria da chamada “robótica social”?

“O Brasil não tem uma cultura de inovação e, portanto, não está participando dessa revolução. Mas tem potencial”, responde o professor Flavio Tonidandel, coordenador da área de ciência da computação da Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Segundo ele, um dos sinais positivos é a Olimpíada Brasileira de Robótica, que compreende, em sua modalidade prática, o desafio de construir robôs autônomos. Mais de 10 mil alunos em todo o Brasil participaram do evento este ano. “Se essa meninada mantiver o pique, fizer universidade em área tecnológica, pode até, em futuro de médio prazo, criar empresas de robótica que venham a competir com as empresas de outros países. Estamos começando a ter know-how na área. Se conseguirmos passar bem esse conhecimento aos alunos, formaremos gerações de egressos com capacidade de criar robôs humanoides no país.”

Há outros obstáculos. “Qualquer modelo de que precisamos, mesmo comprovando que se destina a pesquisa científica, é taxado como brinquedo e o custo fica impraticável. Quem fica atrasado no mundo somos nós”, afirma Andrey Araújo Masiero, pesquisador da FEI. O modelo NAO, por exemplo, custa US$ 9,5 mil no exterior, mas, com os impostos para importação, seu preço sobe para R$ 70 mil.

A Toyota investe num robô que tem funções bastante parecidas com as do Giraff italiano, pensado para uso nos minúsculos apartamentos das cidades japonesas
Esse empecilho alfandegário tem confinado o Brasil ao papel de “montador” de robôs, isto é, o campo de pesquisa mais desenvolvido aqui é o de aperfeiçoamento de modelos já existentes. Isso explica um pouco porque as universidades brasileiras estão num bom nível no desenvolvimento de próteses mecânicas, os chamados “robôs cooperativos”, como é o caso da USP de São Carlos, em São Paulo.

Há também dificuldades culturais. “O mundo ainda não está preparado para os robôs humanoides”, acredita Tonidandel. “Por isso, os robôs companheiros são a onda do momento. Aceitamos melhor os robôs mais simples, que cuidam de coisas simples do nosso dia-a-dia, que podem cuidar de idosos em casa. Não estamos preparados ainda para robôs autossuficientes. Quem sabe, algum dia.”

Em seu doutorado, Masiero estuda a relação humano-robô, objeto fundamental para a evolução das pesquisas para aplicação das máquinas aos cuidados de idosos. “A primeira reação das pessoas é de medo em relação à possibilidade de movimentos bruscos do robô, quão forte pode tocá-las. Depende muito da aparência, altura. Há muito receio num primeiro momento.” É por isso que a indústria busca o formato mais amigável e os primeiro robôs têm cara de brinquedo. Não à toa, encantam as crianças, como mostra uma cena do filme “Frank e o Robô”, de Jake Schreier. O ator Frank Langella vive um idoso que, na ausência dos filhos, passa a ser cuidado por um robô. Sua primeira reação é de repulsa. Em pouco tempo, porém, desenvolve uma relação amistosa, de cumplicidade e sentimento com a máquina.

“Vi o filme e gostei, apesar de não ser muito realista, porque os robôs ainda não estão aptos para tantas tarefas”, diz Orlandini. “No entanto, um ponto foi marcante e realista: as pessoas idosas, de fato, tendem a interagir com o robô como se fossem humanos”.

No filme, é estabelecida uma conexão de empatia. Foi o que também ocorreu com voluntários do GiraffPluss. Orlandini cita o caso de Nonna [Vovó] Lea, a blogueira italiana Lea Mina Ralli, de 94 anos, que testou o robô por meses e ficou famosa depois de muitas entrevistas e da gravação do vídeo promocional do projeto.

Orlandini identifica essa “humanização” em palavras de Lea: “O projeto se chama GiraffPlus, mas eu o chamo de Mister Robin. A primeira vez que vi o robô, pensei que era como um mordomo inglês me ajudando e me trazendo coisas”.

A frase, entende Orlandini, mostra o que é a expectativa dos idosos em relação aos robôs. Embora Frank tenha recebido muito mais de seu eficiente “amigo” na ficção, ele não lhe deu um nome humano. Mas é possível afirmar que sua relação com a máquina foi tão próxima quanto a da convivência entre Robin e Nonna Lea – que morreu no início deste ano.

Por Jorge Felix, publicado no jornal Valor Econômico em 04/09/2014.

07. julho 2016 por Jorge Félix
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Questão urbana e envelhecimento populacional: breves conexões entre o direito à cidade e o idoso no mercado de trabalho

Convido a todos para lerem o meu mais recente artigo acadêmico, em autoria conjunta com a Profª Drª Maura P. Bicudo Véras, publicado na edição atual da revista acadêmica Cadernos Metrópole, do Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.

The urban question and population aging: brief connections between the right to the city and the elderly in the labor market

Leia aqui

 

23. junho 2016 por Jorge Félix
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Silver economy: opportunities and challenges to Brazil adopt the European Union’s strategy

Convido a todos para lerem o meu mais recente artigo acadêmico, publicado, em Viena, no Innovation: The European Journal of Social Science Research. Clique aqui.

15. abril 2016 por Jorge Félix
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Curso Economia da Longevidade 2016

A partir do dia 22 de março, ofereço o curso Economia da Longevidade para interessados em conhecer o conceito, a estratégia internacional, discussão do tema e políticas da União Europeia, o papel da gerontecnologia na formulação da estratégia, discussão da bibliografia internacional, possibilidade de adoção dessa política pública no Brasil e perspectivas de negócios para o público idoso.

Serão 15 horas de curso em 5 aulas.

Local: Rua Ministro Godoi, 471 – Perdizes (próximo ao metrô Barra Funda).

Interessados devem enviar email para jorgefelix@economiadalongevidade.com.br

e colocar no assunto “inscrição”.

 

07. março 2016 por Jorge Félix
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São Paulo, a cidade de Richard Sennett

Por Jorge Félix[1]

Quando “O declínio do homem público”, escrito por Richard Sennett, foi publicado no Brasil em 1988 (Companhia das Letras), 14 anos depois de sua aparição original nos Estados Unidos, tornou-se um daqueles livros muito vendidos, divulgados à exaustão pela imprensa e muito pouco lidos. Realmente, pela complexidade da análise de Sennett sobre a vida urbana sua leitura é exigente. Ele percorre longo caminho histórico desde a construção do espaço público na Antiguidade [numa trilha muito similar a Hannah Arendt] e reúne conceitos da psicologia, da sociologia, da antropologia, da economia e da literatura. Suas idas e vindas de raciocínio deixaram muitos leitores pelo meio do percurso.

Mais de 40 anos depois, porém, a obra de Sennett continua obrigatória para quem quer entender a cidade contemporânea, as múltiplas metamorfoses sofridas pela “cosmópolis” ao longo do tempo e, principalmente, para quem quer discutir as possibilidades de alguma convivência social no espaço compartilhado. Em outras palavras, para quem quer debater a política (pólis). “Como na época romana, a participação na res publica é hoje, na maioria das vezes, uma questão de estar de acordo; e os fóruns para essa vida pública, como a cidade, estão em estado de decadência”, escreveu no início dos anos 1970.

Quando desembarcar em São Paulo, nos próximos dias, para participar do seminário Fronteiras do Pensamento, Sennett perceberá que a maior cidade brasileira é cada vez mais “a sua cidade”. A cidade de sua obra. Aquela que ele descreveu cada vez mais incapaz de reunir “vínculos de associação e de compromisso mútuo que existem entre as pessoas que não estão unidas por laços de família ou de associação íntima: é o vínculo de uma multidão, de um povo, de uma sociedade organizada, mais do que vínculo de família ou amizade”. Arrisca-se dizer que aqui ele é um pouco durkheimiano recorrendo às categorias da “solidariedade mecânica” e da “solidariedade orgânica” do autor francês.

Com a desculpa de que “o mundo está me decepcionando”, o paulistano fecha-se nas tiranias da intimidade descritas por Sennett e uma parte do eleitorado tem simpatia pela solução dos problemas sociais por meio daquele  tipo de líder que ele descreveu como fruto dessa deformação psíquica que confunde a vida pública com a vida íntima. “Um líder político que busca o poder obtém ‘credibilidade’ ou ‘legitimidade’ pelo tipo de homem que é, não pelas ações ou programas que defende”, afirmou. O alerta de Sennett antecipou a celebritização da política, onde a obsessão por pessoas desvaloriza as relações sociais.

Sennett desembarcará em São Paulo no momento em que se discute, por coincidência, a candidatura de apresentadores de tevê para prefeito no ano que vem. Em sua análise, a escolha de outsiders da política, é, primeiramente, um desejo desses personagens se autenticarem enquanto ator social meramente por meio de suas qualidades pessoais. “O que torna uma ação boa, isto é, autêntica, é a personalidade daqueles que nela se engajam, e não a ação em si mesma”, criticou. Ele atribuiu essa confusão aos papéis (personagens fictícios) que os indivíduos assumem para conviver na cidade (espaço público). O fetiche do “eu” perverte a chance de estabelecer contato verdadeiro, aceitar o convívio com desiguais, com estrangeiros. Logo, aquele que profere o discurso emotivo (acrescenta-se aqui outro adjetivo: barato) para defender o “nosso espaço” conquista a simpatia daqueles que estão fechados em si.

Nesta visita, será possível para Sennett, por exemplo, estabelecer conexão direta entre as discussões da São Paulo desse agosto de 2015 com o seu nova-iorquino Forest Hills de 1972. Em seu livro, Sennett conta a história dessa seção de classe média do Queens, de maioria judia. Seus moradores se rebelaram contra a intenção da prefeitura de construir no local um conjunto de habitação popular (três torres de 24 andares) para negros de baixa renda. Tal qual ocorre atualmente na Vila Leopoldina (zona oeste).

O problema ali, descreve Sennett, era além de uma discriminação de classe social e de etnia, um preconceito dos moradores com aqueles dependentes da Seguridade Social. Ou seja, de programas estatais de auxilio à pobreza [ideia que ele vai explorar com mais fôlego em seu livro “Respeito”, Editora Record, 2004, precisamente no capítulo “A vergonha da dependência”].  Mesmo os poucos negros de classe média residentes no Queens foram contra o projeto de Forest Hills. Eles recusavam-se a ser vizinhos de “famílias previdenciárias” e desafiaram os procedimentos operacionais da cidade.

Os argumentos eram diversos. “Minha mulher será assaltada e estuprada e o senhor me pede para ser razoável?” “As pessoas que não trabalharam para isso [morar num bairro bom] não deveriam receber apartamentos caros”. “Somos vítimas da conspiração de um prefeito anti-semita”. Sennett contou o caso para mostrar o risco da tendência de “atomização” da cidade. De uma cidade onde a multifunção dos espaços é suprimida em nome de comunidades (ou condomínios) ou fragmentada (ele cita o exemplo de Brasília, onde isso se deu “edifício por edifício”). Isto é, os dessa classe aqui, os daquela classe ali. Sem chance para encontrar “gente diferenciada”, como bem definiu uma moradora de Higienópolis ao recusar a construção de uma estação do metrô em seu bairro.

O mais relevante é que, a certa altura do embate dos moradores de Forest Hills, só vitórias contra a prefeitura eram insuficientes para reestabelecer a paz. As transações psicológicas entre as pessoas da comunidade se tornaram mais importantes, escreve Sennett, do que o fato de vencer um prefeito “que não está se importando comigo”. Ele bem compara o caso de Forest Hills com o famoso Caso Dreyfus ou o “J’acuse” de Émile Zola – o clássico para estudo psicológico da construção da personalidade coletiva.

As pessoas da comunidade passaram a agir como se somente elas (a maioria judia de Forest Hills), soubessem o que significava sofrimento. Os moradores, por vezes, usaram até o preconceito de negros contra negros para escorar o movimento. Aqueles que defendiam o projeto eram acusados de ser “de fora”, portanto, sem ter experimentado a convivência com os intrusos. “A comunidade sofredora passou a pensar-se a si própria como uma ilha de moralidade”, escreveu Sennett. A única ilha. “Sendo o mundo corrupto e cego, apenas nós é que prestamos” é a frase que resumiria a atitude da comunidade. [Sennett volta ao tema dos riscos da comunidade, desta vez em relação às metamorfoses do mundo do trabalho, no capítulo oito de “A corrosão do caráter”, Ed.Record, 1999].

Os moradores de Forest Hills usaram e abusaram do discurso da “moral ultrajada”, do “bem vilipendiado” num jogo de representação. Esse jogo levou o grupo a pensar a si mesmo como uma coletividade emocional. “A experiência de compartilharem dessa revolta juntos quase imperceptivelmente acostumara um número cada vez maior de pessoas a pensar nessa exibição como uma espécie de comunhão umas com as outras”, observa Sennett. E completa: “Compartilhar da revolta havia se tornado um meio para se falar dentro da comunidade, e quem quer que não compartilhasse desse sentimento seria considerado suspeito”. Se tiver a oportunidade de presenciar alguma manifestação de rua em São Paulo, talvez Sennett testemunhe um novo Forest Hills.

Não é apenas nessa análise psicológica sobre a cidade que o pensamento de Sennett encontra eco na São Paulo que ele visitará. Diga-se de passagem, no diagnóstico dessa psique, ele condena o planejamento de cidades que procuram melhorar a qualidade de vida tornando-a mais intimista. Ele só vê solução em um ambiente heterogêneo, onde um ciclista pode dividir o espaço com automóveis, o comércio com a habitação, o pobre com o rico, o imigrante com o nativo. Quando o urbanista busca estimular a segregação, a limitação de espaço para cada um, quase sempre chamando isso de comunidade, diz ele, “o próprio senso de humanidade do planejador cria a esterilidade que ele poderia estar querendo evitar”.

Essa esterilidade da convivência entre os iguais é a mesma apontada por Sennett em relação às redes sociais. Na época da escrita de seu livro, redes sociais físicas. O contato face a face, no século XVIII, ocorria no espaço público do teatro, dos pubs e dos cafés. Nos teatros, as pessoas eram divididas por setores tal como os cercados nas Viradas Culturais paulistanas separam os vips daqueles com os quais a filosofia do evento pretendia interagir sem as paredes das salas de espetáculos. Nesse convívio, todos estão vigiados. Logo, o silêncio se impõe como defesa. A omissão dos sentimentos impera como forma de evitar a exposição pública. Na era digital, as redes sociais assumem o papel, principalmente, dos cafés e dos pubs, onde se compartilhavam experiências e se faziam amigos no séculos XVII e XVIII.

Nesses ambientes, “um homem se levantava repentinamente quando tinha ‘um ponto’ a fazer”, isto é, um post, em facebookês. “Isto exigia a repetição de frases quando consideradas adequadas”. Ou o compartilhamento na era digital. O homem urbano de Sennett, no século XVIII, assemelha-se mais ainda ao paulistano do século XXI quando era bloqueado pela audiência por meio de muito barulho. Aos poucos, ou de bloqueio em bloqueio, o homem urbano foi reunindo-se com seus iguais em cafés e pubs para cada tipo de bando, isto é, em grupos fechados. A ponto de a elite fechar-se, mais tarde, em clubes invioláveis, onde podiam exercer um controle total da vida em público. Ouvir só o que estava sob concordância ampla. Leis só serviam quando agradavam-lhes o próprio ponto de vista. Do contrário, barulho. Nos clubes fechados estavam livres de surpresas e do desconhecido.

Uma dificuldade da convivência da cidade decadente de Sennett é o timing do contato ou quando aproximar-se do outro. Essa talvez seja a etiqueta mais discutida no espaço público digital. O homem era obrigado a levantar o chapéu para a mulher como um pedido de permissão. De modo algum, uma troca de frases, porém, deveria ser entendida como uma aquiescência para ser seu intimo ou visitar sua casa. Tal qual as pessoas encontram-se, falam-se, bebem juntas, mas se uma convida a outra na rede social, muitas vezes, o ato é visto como abuso ou uma espécie de intimidade forçada. O outro da rua, na cidade do século XXI, continua a ser um estranho.

É possível transportar também para a São Paulo de hoje a crítica de Sennett ao culto à velocidade. Londres e Paris, como conta, foram concebidas para privilegiar o fluxo. Era o medo das multidões do século XVIII. Avenidas e boulevares conferiram a locomoção um novo sentido social. Tudo era pensado para privilegiar o corpo em movimento e evitar tumultos. A cidade passa a ser um organismo de veias e artérias. Coágulos [passeatas, aglomerações] eram anomalias. A Paris de Haussmann, o Regent Street e o Regent’s Park de Londres, exemplifica Sennett em “Carne e Pedra” [Ed. Bestbolso, 2014], são modelos dessa “revolução urbana” em favor da velocidade surgida na esteira das revoluções do século XVIII ou dos movimentos de 1848.

São Paulo acompanhou essa onda da velocidade. “A capital da vertigem”, de Roberto Pompeu de Toledo [Ed. Objetiva, 2015], nos conta o entusiasmo da elite paulistana pelas veias abertas aos primeiros modelos do “automobile” que chegaram à cidade no início do século XX. Na opinião de Sennett, o tempo compactado pela lógica do capitalismo contemporâneo dificulta a luta da cidade contra a velocidade. O transporte de mercadorias e de corpos, a força de trabalho em movimento, suprime a ideia de espaços para simplesmente “ficar”. Não apenas a política de redução da velocidade nas avenidas e ruas de São Paulo confirmam sua mutação na cidade em declínio de Sennett, mas também outra ação atualmente em debate: os parklets. Os espaços para sentar no meio das ruas ou calçadas, na opinião de muitos paulistanos, “atrapalha os carros”.

A prioridade ao modelo veloz, no decorrer dos séculos, contribui para forjar um modelo de cidade, cada vez mais, concentrador de renda. Como bem diz Zygmunt Bauman só as “elites voadoras” cujos corpos vivos são transportados de heliponto a heliponto nas cidades conseguem usufruir da velocidade e vencer o tempo imposto pelo modelo urbano contemporâneo. Em 1910, 10% da população de Londres detinham 90% da riqueza nacional, sendo que 1% das famílias mais ricas apropriava-se de 70%. Essas relações eram quase idênticas as de 1806, quando aos 10% mais ricos cabiam 85% dos valores da produção, diz Sennett, sendo 65% em mãos de 1% de magnatas. A velocidade cumpriu um papel, portanto, na formação de uma sociedade desigual.

Essa lógica, continua Sennett, foi mitigada pelo advento do metrô. A transferência da velocidade para o subterrâneo, a preço baixo, permitiu o trânsito de corpos para locais mais distantes e impeliu a classe trabalhadora londrina do fim do século XVIII para subúrbios. “Nem o mais ardoroso flaneur deixaria de simpatizar com o caráter de classe do movimento para fora”, destacou Sennett. Se estava encardido por um viés de limpeza, o metrô, por outro lado, contribui para distribuir riqueza. Os trabalhadores mais simples poderiam, agora, morar em habitações melhores em locais onde o custo da terra era mais reduzido. No fim do século XIX, entre o grupo de assalariados, apenas empregados domésticos moravam em Londres.

O transporte público, porém, estava desvinculado do prazer nem tampouco seus itinerários contribuíam para a interpenetração das classes sociais [mais uma vez está aí “A capital da vertigem”, de Pompeu de Toledo, a nos contar como os primeiros bondes serviram à elite e sua primeira linha passava, sem nenhuma coincidência, pela porta do primeiro prefeito de São Paulo, Antônio Prado]. O transporte público destinava-se a transportar trabalhadores ao trabalho e às lojas. Inexistia, Sennett chama a atenção, a ideia de conforto, tão importante mais tarde quando a elite conscientiza-se da inexorabilidade de reestabelecer a força física desgastada pelo trabalho para poder usufruir de mais trabalho no dia seguinte [ideia muito bem abordada por Sennett no capítulo 10 de “Carne e pedra”].

Esse desrespeito ao caráter dos corpos humanos pela sociedade ocidental resume a obsessão de pesquisa de Sennett. Não apenas as “latas de sardinha” do transporte paulistano incorporam essa sua visão das metrópoles em construção nos séculos passados. O corpo desvalorizado pela dinâmica urbana, seja com degraus impossíveis para pessoas idosas escalarem ou ataques a corpos identificados como homossexuais em plena via pública, na Avenida Paulista, por exemplo, dialogam com o diagnóstico de falta de dignidade reclamada por Sennett e seu apelo à diversidade. Ele investiga como as questões do corpo foram expressas na arquitetura, no urbanismo e na vida cotidiana.

A dificuldade de ser o que se é, a necessidade do uso de máscaras, o horror ao diferente cerceiam a liberdade do corpo no espaço urbano. “Que liberdade têm as pessoas quando são o que aparentam?”, pergunta. Em sua busca pela “limpeza”, a cidade sacrifica o corpo. É difícil mantê-lo. Talvez a Cracolândia – instalada quase ao lado daquilo que São Paulo tem de mais civilizado, a Sala São Paulo – seja o maior abatedouro de corpos da cidade. Mas não só lá. Sennett saberá que, outro dia, um casal gay bem jovem precisou da madrugada quase deserta da Avenida Paulista para tirar fotos nus. Foi um protesto à pressão da cidade que os obriga, durante o dia a viverem fora de seus corpos. Foi uma nudez sem a “graça” teológica do italiano Giorgio Agamben [em “Nudez”, Ed. Autêntica, 2014].

Essa necessidade de valorizar o corpo talvez explique, para Sennett, a pretensão de São Paulo em ser a capital da moda. Moda e corpo forjam a identidade de máscaras. O homem urbano, lembra ele, se vestia por ironia. Tal qual hoje, em São Paulo e outras metrópoles, estão cheias de topetes, cabelos coloridos, pircings, chapéus, turbantes. “O corpo se torna a marca”, diz. No fim do século XIX, tornou-se “hábito furar os bicos dos seios das mulheres de modo a poder pendurar broches de ouro ou adornar com jóias”. Tudo para chamar a atenção da plateia de que ali existe um corpo a ser levado em conta. “Era comum homens e mulheres molharem suas peças de musselina com a finalidade de fazê-las se colar ao corpo ao máximo. Pingando de molhados, saíam então para passear pelas ruas, tanto no inverno como no verão. O resultado foi um terrível surto de tuberculose na população de Paris [do século XVIII]”, conta em “O declínio do homem público”.

A falta de creches e residências para idosos também mostrará a Sennett como São Paulo é a sua cidade. O século XIX, observou ele, testemunhou uma mudança na família nuclear urbana. Essa instituição era o instrumento que as pessoas usavam para resistir às transformações econômicas e demográficas da sociedade. Há 40 anos, a industrialização pós-guerra provocava uma alteração similar que iria culminar no envelhecimento da população europeia. Isso significou menos pessoas disponíveis para cuidar de crianças e idosos. “Sem o apoio dos familiares, as pessoas frequentemente agiam sem direção e rapidamente se destruíam nos repentinos desastres econômicos, tão comuns na época”, alerta.

Todas as transformações ocorridas na cidade de Sennett dos séculos passados, em proporções devidas, ressurgiram na construção de uma São Paulo como “cidade global” [termo criado pela socióloga Saskia Sassen, mulher de Sennett, que também estará no Fronteiras do Pensamento] ou no “espaço construído” [para usar o conceito de David Harvey em “Cidades rebeldes”, Ed. Martins Fontes, 2014] – uma cidade a serviço da produção capitalista e nunca das pessoas. Tal qual no século XIX, nas cidades de Sennett, a reação em São Paulo é a mesma quando surge a multidão a invocar seu direito à cidade.

Quem reivindica, sobretudo com o uso da força, expressando seus sentimentos verdadeiros, sem uso de máscaras civilizatórias (embora mascarados, paradoxalmente) é visto como “subclasse”, “desajustados sociais”, como menciona Sennett em relação aos manifestantes de antão ou mesmo da Paris da década de 1960. Ou seja, os “vândalos” que surgiram na imprensa com as manifestações de junho de 2013. A modernidade, diz ele, rotulou a multidão como o modo pelo qual as mais venais das paixões dos homens são o mais espontaneamente exprimidas; a multidão seria o homem-animal libertado de suas rédeas. Para Sennett, essa interpretação guarda um explícito caráter de classe social. Mas as multidões constituem apenas, conclui ele, uma consequência de um espaço urbano em declínio.


[1] Jornalista, mestre em Economia Política e doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP, onde é professor de cursos de pós-graduação no Cogeae.

19. agosto 2015 por Jorge Félix
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