O homem que não teve a opção de morrer

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(Publicado no jornal Valor Econômico em 7 de março de 2014, foto do filme “O Retrato de Dorian Gray”, Divulgação)

Por Jorge Félix

Ninguém gosta de envelhecer. A máxima de que a opção é a morte prematura ajuda na difícil resiliência. O desejo de uma juventude perene (tornado tão evidente pelas inúmeras possibilidades da indústria da beleza na sociedade pós-moderna) foi personificado na literatura por Oscar Wilde em “O Retrato de Dorian Gray”, de 1891. Com suas frases memoráveis, ele revelou, de fato, a busca subconsciente da vida eterna. Dorian exibia o poder juvenil, a hegemonia da força e, a partir dessa certeza, sentia-se livre para dizer o que fosse a quem entendesse merecer seu veneno salivar. Wilde desenhou um sujeito bem à contragosto da longevidade sábia e socialmente útil pregada pelas frases de Matusalém, do alto de seus 969 anos, na ” Bíblia”.

A questão proposta pelos dois personagens, porém, é a grande inquietação da humanidade com o envelhecimento. Mais ainda. Qual é o sentido de uma vida mais longa? Sete anos antes de escrever “O Menino do Pijama Listrado”, seu maior best-seller, o irlandês John Boyne, de 43 anos, iniciou sua bem-sucedida carreira literária com “O Ladrão do Tempo”. Seu tema é justamente a longevidade. Seu personagem, Mathieu Zéla, deixou de envelhecer por volta dos 50 anos, em plena forma física, com boa saúde e, aos 256 anos, decide escrever sua biografia, ainda espantado por nunca ter tido a opção de morrer.

Ao abandonar questões filosóficas ou divagações sobre a velhice, Boyne conquista o leitor e constrói um thriller de ritmo ágil, curioso e divertido, sem prejuízo à reflexão sobre o tema principal do livro. Sua narrativa avança ao modelo das famosas três dimensões rodriguianas. No caso, em vez da alucinação, passado e presente, a história é contada nos três séculos de vida de Zéla, um francês nascido em 1743. Os três pretéritos suscitam três personagens num só – um do século XVIII, outros do XIX e do XX -, com tramas, conflitos e fins distintos. Não demora para o leitor escolher o seu predileto. A brincadeira lembra Vargas Llosa em sua biografia (“Peixe na Água”). Mas como se trata de ficção, a técnica permite a Boyne exibir sua maestria em contar histórias.

Com o passar dos anos, Zéla revela-se uma testemunha privilegiada da história. Afinal de contas, ele viveu desde a Revolução Francesa até a queda do Muro de Berlim, passando pelo crash de 1929, Grandes Exposições e outros eventos, onde foi maior ou menor coadjuvante. A piada de Dorian Gray travestido em Forrest Gump funciona e Zéla convive com um papa, Charles Chaplin, Herbert Hoover, Robespierre e estrelas da televisão americana, pois, no momento em que escreve a biografia, ele é um dono de emissora. Mas já foi ladrão, lavador de cavalos, financista, empresário de vários setores depois de todas as reinvenções possíveis para uma vida de dois séculos e meio, que começou quando a expectativa de vida no planeta era de pouco mais de 30 anos.

A disrupção com o tempo absoluto e impositivo permite a Zéla cuidar de seu irmão caçula e de gerações e gerações de sobrinhos. Colecionar 19 mulheres e 900 amantes. O mais curioso, que pode até ser apontado como uma falha na história, é que não teve filhos. Tanta vida e tantos amores o fizeram esquecer o nome de algumas de suas mulheres. Jamais o primeiro amor, Dominique.

Talvez aí Zéla tenha algo em comum com o leitor ou leitora, independentemente da idade. É possível esquecer o primeiro amor mesmo para os amantes mais longevos? Em sua vida sem fim, o amor para Zéla continua a ser um mistério eterno. Assim como a própria finitude. Depois de ir a centenas de enterros em 256 anos, o personagem de Boyne intriga-se: “Não consigo entender de jeito nenhum por que os corpos das outras pessoas as abandonam com tanta frequência enquanto o meu é tão incrivelmente fiel a mim”.

O ladrão do tempo

John Boyne. Trad.: Henrique B. Szolnoky

Companhia das Letras 563 págs., R$ 54,00 / BBB

07. março 2014 por Jorge Félix
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Uma homenagem à permanência das análises de François Chesnais

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(Publicado no jornal Valor Econômico em 18 de fevereiro de 2014)

Por Jorge Felix

Até o estouro da crise financeira de 2007, o pensamento econômico heterodoxo esteve alijado do debate público e de boa parte do meio acadêmico. Poucas universidades, no Brasil e no mundo, sustentaram o ensino de uma visão crítica em meio à avalanche da liberalização econômica deflagrada a partir do fim dos anos 1970. Muitos autores foram arrastados para o fundo das gavetas ou amargaram a poeira nas prateleiras de bibliotecas. O economista marxista François Chesnais foi uma exceção.

Sua interpretação sobre o capital financeiro, sobretudo a dinâmica ao longo dos anos 1980 e 1990, resistiu à hegemonia do chamado Consenso de Washington. Mais ainda. Seus livros e artigos mantiveram alto grau de influência e, depois da crise atual, invadiram até a esfera ortodoxa internacional – alguns autores, hoje, o citam, sem cerimônia, em suas bibliografias. No Brasil, desde 1979, quando visitou o país pela primeira vez, Chesnais sustenta uma profícua interação acadêmica. Sua ascendência intelectual, inicialmente na Universidade de Campinas, depois em diversas instituições de linha heterodoxa, como Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, entre outras, é agora reconhecida no livro-homenagem “Desenvolvimento e Mundialização – O Brasil e o Pensamento de François Chesnais”, editado em comemoração aos seus 80 anos.

Além desse livro, um seminário foi organizado no Rio de Janeiro por economistas que, há décadas, interagem com Chesnais e reconhecem a influência dele sobre suas carreiras acadêmicas, como Luciano Coutinho, presidente do BNDES, Luiz Gonzaga Belluzzo, Marcos Ferreira da Costa Lima (Universidade Federal de Pernambuco), Flávio Bezerra de Farias (Universidade Federal do Maranhão), Rosa Maria Marques (PUC-SP) e Paulo Nakatani (Sociedade Brasileira de Economia Política), entre outros. No prefácio, Coutinho destaca uma das características que explicam a perenidade do trabalho do homenageado: “Chesnais pertence ao seleto grupo de economistas políticos da estirpe que se recusa a emitir opiniões baseadas em aparências. Recorre antes à observação atenta dos fatos, estatísticas e tendências; além disso, sempre procura realizar minuciosa revisão do debate intelectual e da bibliografia, para depois expressar seu ponto de vista”.

Em 11 capítulos escritos por doutores e pós-doutores, quase todos pesquisadores dedicados ao estudo e ensino da dinâmica da finança no capitalismo do século XXI, o livro torna-se fundamental para aqueles com interesse em compreender a lógica da financeirização da economia contemporânea, entender a importância de Chesnais nessa área de estudo e também é uma leitura essencial para quem deseja – ou precisa – se debruçar sobre a matriz teórica que rege a interpretação dos fatos econômicos de alguns protagonistas do atual governo brasileiro.

Esse arcabouço de ideias sobre o desenvolvimento econômico no Brasil começou a ser construído, em 1982, no histórico Seminário Internacional sobre Inovação e Desenvolvimento Tecnológico no Setor Industrial, promovido pela Unicamp (Coutinho e Belluzzo), e para o qual Chesnais foi convidado por José Eduardo Cassiolato (UFRJ), um dos organizados do livro, ao lado de Marcelo Pessoa de Matos e Helena M. M. Lastres.

Esse resgate histórico deve ser bastante enriquecedor para os leitores acostumados apenas com as interpretações de Chesnais sobre o aspecto financeiro do capitalismo. O texto de Coutinho, Mariano Francisco Laplane e Ana Lucia Gonçalves da Silva aborda a contribuição do homenageado para a economia industrial e da tecnologia no contexto da terceira revolução industrial, sob domínio das finanças. Antes de se dedicar ao estudo do capitalismo financeiro e amargar uma aposentadoria precoce por problemas políticos, Chesnais foi o economista principal da divisão de ciência, tecnologia e indústria da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Um dia, a despeito do alto nível de seus “papers”, foi chamado no gabinete do secretário-geral para ser informado de que, com a entrada dos países do bloco socialista na OCDE, a instituição precisava garantir um discurso único sobre o comunismo e ele destoava, com sua visão crítica. Chesnais, então, encontrou abrigo na Sorbonne (Paris XIII).

“Além de colaborar, nos anos 1980, no desenvolvimento dos projetos do grupo de pesquisa sobre novas tecnologias, Chesnais contribuiu para a conceituação do Instituto de Economia da Unicamp das transformações do capitalismo mundial na década seguinte”, escrevem os autores. Essa conceituação ocorreu a partir de 1994, com o lançamento na França da principal obra de Chesnais, “A Mundialização do Capital”. Antes de ser editada no Brasil pela Xamã, em 1996, a revista “Economia e Sociedade”, da Unicamp, publicara um resumo da obra.

A interpretação precursora de Chesnais sobre a globalização cristaliza a expressão do título e a caracteriza como uma fase específica de um processo muito mais longo de conscientização, em primeiro lugar, do mercado mundial e, depois, de internacionalização do capital, primeiro sob sua forma financeira e, em seguida, sob sua forma de produção. A ênfase de Chesnais, como destacam Rosa e Nakatani, se dá nos aspectos organizacionais e operacionais das empresas transnacionais e, naquela época, ainda centrado no capital industrial, embora já analisasse o papel exercido pelas altas taxas de juros na orientação de investimento.

Em 2004, após ampla pesquisa e leitura de Karl Marx e Rudolf Hilferding, Chesnais sofistica sua interpretação dessa mundialização, datando em meados dos anos 1970 a nova fase capitalista, caracterizada por desmedida expansão do “capital portador de juros”, principalmente em sua forma mais perversa, a de capital fictício – que resultaria em estouro da bolha. Até a quebra do Lehman Brothers, era preciso coragem, no meio acadêmico, para sustentar esses termos, vistos como “coisa de economistas franceses”, mas a releitura de Chesnais prova quanto sua obra é visionária.

Desenvolvimento e Mundialização – O Brasil e o Pensamento de François Chesnais

Helena M. M. Lastres, José Eduardo Cassiolato e Marcelo Pessoa de Matos.

Editora: e-papers.

394 págs., R$ 35,00

 

06. março 2014 por Jorge Félix
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Um mercado se abre para empreendedores

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(Publicado no jornal Valor Econômico, em 28 de fevereiro de 2014)

Por Jorge Felix

É um portão de garagem como qualquer outro daqueles casarões imensos da arborizada avenida Pedroso de Moraes, em Alto de Pinheiros, bairro da zona oeste de São Paulo. Mas quando a fisioterapeuta Viviane Silva o abre, erguendo a grande estrutura basculante, em vez de um ou mais carros de luxo que costumam habitar as garagens da redondeza, o que se vê é um inusitado showroom. Ela faz as demonstrações dos produtos.

“Está vendo este babador? É um problema servir comida para a pessoa idosa. Os babadores são pequenos, feitos para cantinas ou para crianças. Esse aqui, não. Evita que o cuidador tenha que trocar a roupa da pessoa a cada refeição. Pode não parecer, mas trocar a roupa de um idoso, dependendo do grau de dependência, dá um trabalhão”, explica, colocando nela mesma o babador, comprido até o joelho. “Eu mesma pesquisei o material. Não queria um plástico desconfortável, duro.”

Uma mesa, com frutas artificiais, pratos e talheres, está posta. Os garfos são tortos e o cabo, recoberto de borracha (como um guidom de bicicleta). “A pessoa com artrite não consegue usar talheres normais. Treme, tem dificuldade para girar o garfo.” Partidor de comprimido, guincho para erguer o idoso da cama, cadeiras que o impulsionam (com molas) na hora de levantar e roupas com zíper especial, sem velcro, para quem tem Alzheimer. “O paciente com Alzheimer procura distração e o velcro não serve, porque ele fica arrancando a toda hora. E o partidor de comprimido evita que a pessoa tome a dose errada ou jogue a metade fora porque cai no chão.”

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Depois de seis anos trabalhando em Portugal, Viviane chegou ao Brasil com a ideia da loja Cuidadoso na cabeça, inspirada na versão europeia Loja do Avô. “A questão era facilitar o acesso a esses itens no Brasil, onde já existe muita coisa nacional, mas as famílias desconhecem, sofrem com problemas cotidianos do cuidado que podem ser facilmente resolvidos”, diz.

A Cuidadoso é apenas um exemplo de uma tendência de empreendedorismo suscitada pela longevidade. O envelhecimento populacional produz cada vez mais manchetes de negócios no Brasil e no mundo. Ora é o Facebook que passa a ter mais um crescimento maior de usuários acima de 55 anos do que de jovens e adolescentes. Ora é o Japão vendendo mais fraldas geriátricas do que infantis. Ou o Google anunciando milhões de dólares em investimento numa nova empresa, a Calico, destinada a pesquisas genéticas para combater o envelhecimento. Ao contrário da percepção provocada a partir da proliferação dessas notícias, a maioria das grandes corporações – ou marcas – está longe de fazer uma reflexão sobre seus segmentos e sua sobrevivência diante da nova dinâmica demográfica e, consequentemente, do mercado consumidor.

Os casos de sucesso que se tornam notícia, – salvo setores óbvios, como saúde, financeiro e turismo -, quase sempre se referem a produtos ou serviços descobertos pelo consumidor idoso, mas nunca criados pensando-se em sua existência ou suas necessidades. Essa brecha de mercado no Brasil, com 12,1% da população com 60 anos ou mais, tem sido bem melhor aproveitada por pequenas e médias empresas. São empreendedores novatos, com firmas nascentes (“startups”), que despontam com criatividade e inovação para atender demandas não imaginadas num país “jovem”. Essas empresas, a despeito de vislumbrarem o lucro, têm adquirido, em meio ao rápido processo de envelhecimento da população brasileira e das deficiências do setor público, um caráter de responsabilidade social.

Ao contrário de empresas com um olhar deslumbrado por uma suposta renda generosa do consumidor idoso – o que está distante da realidade de um país desigual como o Brasil – nota-se entre esses empreendedores uma espécie de compromisso com o que se poderia chamar de uma “causa” da velhice. “Precisamos esclarecer as empresas, os investidores e os profissionais sobre a área do envelhecimento, todas as questões sociais e, assim, melhorar os negócios”, diz Marília Berzins, presidente da ONG Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (Olhe). O Olhe surgiu com o objetivo de suprir um vácuo do setor público: a formação de cuidadores. Desde 2008, o governo federal ensaia iniciativas para formar esses profissionais. No entanto, sem sucesso quanto ao número demandado por famílias com idosos dependentes. No Brasil, apenas 1% dos idosos vive em instituições de longa permanência (asilos). “Não podemos deixar o discurso de mercantilização da velhice prevalecer, mas temos que ter a noção de que a iniciativa privada pode oferecer muito para melhorar o bem-estar da população idosa”, observa Marília.

Um dos motivos para o atraso de empresas maiores em relação ao envelhecimento está no precário nível de intercâmbio entre a comunidade acadêmica debruçada sobre o tema do envelhecimento e o meio empresarial. As pesquisas e os pesquisadores aumentam em número. Este ano, a relação candidato-vaga para o curso de graduação em gerontologia da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, cresceu 100% – de 3 para 6 candidatos por vaga. A incubadora da própria universidade já abriga os primeiros negócios na área. Um deles é a Orientação Particular e Acompanhada (OPA), fundada pela gerontóloga Tássia Chiarelli, ex-aluna da universidade. “O objetivo da OPA é transformar o tempo disponível em oportunidade”, diz. A OPA organiza eventos com idosos, visitas a museus, idas ao teatro, cursos, palestras. “Conseguimos ter um total de 170 participantes em nossas atividades presenciais. É interessante o retorno em nossas atividades: em média, a participação chega a três eventos por pessoa. O contato da empresa com seus clientes se dá principalmente na internet, pelo portal OPA ou pelo Facebook.

Na internet também surgiu, há três anos, o Empreender Saúde, espaço colaborativo criado pelos médicos Vitor Asseituno Morais, de 24 anos, e Fernando Cembranelli, de 32. “Nosso foco foi buscar quem estava fazendo coisas diferentes na área de saúde, aproveitando a tecnologia, no caso dos idosos, para baratear custos de saúde com inovação”, explica Asseituno. A empresa organizou vários eventos no país -, o último, em dezembro, de caráter internacional. Em seu site, o Empreender Saúde abriu espaço para um colunista, o psicólogo Antônio Leitão, 30 anos, que escreve sobre negócios. “Descobri que há uma imensidão de exemplos internacionais, aplicativos, que facilitam a vida da pessoa idosa”, afirma Leitão.

A complexidade, a heterogeneidade da população idosa e o risco de acreditar em alguns mitos exigem do empreendedor muita informação. Depois de concluírem o mestrado em gerontologia, Isabella Quadros e Denise Mazzaferro decidiram abrir a Angatu Integração e Desenvolvimento Humano, empresa de consultoria em marketing e recursos humanos. “Ainda sentimos que estamos “educando” algumas empresas sobre quem é e como se comporta esse “novo” consumidor”, diz Denise.

Uma das principais fontes de dados e conhecimento na área é o Portal do Envelhecimento, criado em 2004 por alunos e professores de pós-graduação em gerontologia. Depois de dez anos, o portal, agora, será a interface de uma empresa de serviços. Seu design será totalmente reformulado, mantendo a perspectiva de produzir conteúdo referenciado a questões de interesse da pessoa idosa, mas também oferecendo produtos e serviços. “Por exemplo, se você precisa colocar um familiar em um centro-dia, onde fica? Como escolher? Qual o preço? Ou quer fazer um curso de dança, de línguas? Ou precisa de um transporte? De um acompanhante? Enfim, vários serviços que estão dispersos, oferecidos por pequenos empresários, desconhecidos da grande maioria. Esta página colocará as pessoas em contato direto com seus fornecedores e as pessoas é que avaliarão os serviços e produtos oferecidos”, explica Beltrina Côrte, editora do Portal.

“Antes de abrir um negócio é preciso envolvimento com a temática do envelhecimento, é preciso conhecer bem a área, a pessoa idosa, a realidade”, recomenda a fisioterapeuta Maria de Mello, que atua no setor há mais de 20 anos, e preside o Centro Interdisciplinar de Assistência e Pesquisa em Envelhecimento (Ciape), uma ONG educacional, com sede em Minas Gerais, que, este ano, traz para São Paulo o curso de pós-graduação em gestão de negócios para o público idoso. “Antes de enxergar o envelhecimento como uma oportunidade de negócio, é preciso desvendá-lo como fenômeno social”, comenta.

É claro que grandes empresas também estão despontando nos negócios para o envelhecimento. Mas as poucas marcas lembradas, como Danone, Telehelp (tecnologia assistiva), Prevent Senior (plano de saúde), Tena (fraldas), só confirmam a regra de que há ainda muito que avançar no Brasil. Principalmente, quando se fazem comparações com o que acontece no exterior. No Japão, o McDonald’s adaptou todo seu mobiliário e cardápio para um público de mais idade. Nos Estados Unidos, o dono de uma sorveteria contratou estudantes apenas para jogarem xadrez ou simplesmente conversar com clientes idosos, que frequentavam o lugar e queriam um pouco de atenção.

As histórias de sucesso mostram que, seja um grande negócio ou uma pequena ou média empresa, uma questão é fundamental ao empreendedor desta área. “No negócio do envelhecimento, mais do que em qualquer outro setor, é imprescindível ter o olhar humano”, ensina Viviane Silva.

28. fevereiro 2014 por Jorge Félix
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Alfabetização de adultos: o Brasil desistiu?

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(Publicado no jornal Valor Econômico em 3 de janeiro de 2014, com o título “Cidadãos incompletos” na capa e “Cidadão, ainda que tardio”, foto: Cláudio Belli/Valor)

Por Jorge Félix

No Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos de Sapopemba, bairro da parte mais pobre da zona leste paulistana, o direito a aprender é defendido à bala. Muitas vezes, os guardas, que cumprem plantão em tempo integral, atiraram em bandidos e traficantes para proteger a escola. Lá dentro, pessoas como Carlos Alves da Silva, 43 anos, pernambucano de Quipapá -, um dos 400 piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) entre os 5.565 municípios brasileiros (0,552) -, se protegem contra a violência do analfabetismo. Há dois anos, ele conseguiu o que nenhum de seus 22 irmãos, perdidos na saga da vida nordestina, sequer sonhou: ler e escrever.

Trabalhador rural desde os 4 anos – quando “enterrava com o pé os carocinhos de milho na roça” – Silva chegou a ser empregado de uma indústria em São Paulo. “As dificuldades começaram quando instalaram uma máquina computadorizada e precisava de estudo. Aí, fui mandado embora.” Com deficiência física – a poliomielite o pegou desprotegido na infância -, trabalhou mais quatro anos como embalador, até a morte de sua mulher, vítima de câncer. Com quatro filhos para criar, aposentou-se. “Poderia estar trabalhando. O que me tirou do mercado foi o desconhecimento.”

Seu colega de escola, o pedreiro Reinaldo Souza Costa, 63 anos, alfabetizado há dois, concorda: “Se soubesse ler e escrever desde os 30 [anos] não teria parado, podia fazer outra coisa que dependesse menos do físico”. Desde os 35 anos, ele sonhava ler. Tentou. Mas dormia nas aulas, de cansaço. Costa trabalhou muitos anos, no Paraná, o dia todo em cima de um cavalo, cuidando de 20 mil cabeças de gado para um patrão que “tinha umas dez fazendas”. “Nunca com registro em carteira”. Sem direito à aposentadoria, não tem renda. Vive de economias e de bicos.

Destino melhor pode estar reservado para seu colega alagoano Admilson Barbosa, que nasceu pescador em Maragogi, há 39 anos, mas hoje, alfabetizado, é trabalhador formal em empresa de segurança. Ou para o jovem Francisco Eduardo de Oliveira, 18 anos, da cidade de Encanto, no Rio Grande do Norte, que, em sua terra, “nunca tinha visto pão” e agora é padeiro.

É difícil mensurar o impacto econômico da alfabetização de Silva, Costa, Barbosa, Oliveira e outros milhares de brasileiros que aprendem a ler depois de adultos. Essa dificuldade matemática tem servido de justificativa para governantes colocarem sob ameaça os programas de alfabetização de jovens e adultos. Embora o Brasil ainda insista em registrar 8,7% de analfabetos absolutos em sua população, a educação de quem completou 15 anos sem aprender a ler e escrever, em alguns Estados, deixou de ser um dever do poder público, como determina o artigo 205 da Constituição Federal, e cada vez mais é vista como um desperdício de recursos do erário. Especialistas ouvidos pelo Valor concordam que em vários Estados há uma aposta implícita de gestores de que podem erradicar o analfabetismo com duas ações – ou melhor, com uma ação e uma opção pela inércia: ensinar na idade certa e esperar a morte dos analfabetos mais velhos.

É difícil medir o impacto econômico da alfabetização, o que tem servido para colocar sob risco programas voltados para jovens e adultos

A base dessa ideia é uma visão fiscalista de alocação de recursos. Isto é, o setor público deve atuar como o setor privado e definir o volume de investimentos de acordo com o retorno econômico. Em setembro, essa espécie de pacto subjacente para resolver o problema do estoque de analfabetos do país veio à tona com uma declaração, sem meias palavras, do governador do Ceará, Cid Gomes, em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura de São Paulo: “Eu sou crítico de programas, que o Brasil já adotou no passado, de alfabetizar adultos. O Brasil já teve o Mobral [Movimento Brasileiro de Alfabetização, criado pela ditadura militar, em 1967], já teve aquele Solidariedade da dona Ruth [Alfabetização Solidária, criado no governo de Fernando Henrique Cardoso]. A meu juízo, o retorno é muito pequeno diante do investimento. Na minha cabeça, o que é que tem que fazer? Fechar a torneira. Essa expressão não é minha. É de um ex-dirigente da Unicef.” Como informou o governador, o Ceará decidiu investir no Programa de Alfabetização na Idade Certa (PAIC) que, em 2012, resultou em uma queda de 0,1 ponto percentual na taxa de analfabetismo do Estado, que é de 16,4% – o dobro da nacional, de acordo com o IBGE.

Mesmo aqueles que defendem a tese de que o retorno econômico do investimento em alfabetização de adultos é menor do que o realizado em programas para crianças na idade certa para aprender, jamais defendem uma redução ou eliminação dos programas de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

“Por mera questão de custo e benefício, é verdade, o retorno do investimento é menor. Essa é uma avaliação puramente econômica. Mas não foi culpa dessas pessoas. A sociedade é que as deixou na mão, e agora deve arcar, independentemente de o retorno ser baixo”, diz Naércio Menezes Filho, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa. Em sua avaliação, o retorno econômico do impacto da alfabetização de pais e avós no estímulo para filhos e netos buscarem o conhecimento também não justifica o investimento. “É muito pequeno. A criança não vai fazer o dever de casa porque o pai aprendeu a ler. A questão é ética e moral: as pessoas têm direito a aprender e o Estado deve arcar, mesmo sabendo que o retorno é baixo.”

Embora destaque a inexistência de pesquisas sobre esse impacto, Menezes afirma que “o governo desistiu” desse investimento depois de várias tentativas frustradas. “O impacto é pequeno porque, se a pessoa aprende e não usa, o conteúdo se perde.” Ele cita pesquisas de James Heckman, prêmio Nobel de Economia em 2000, sobre a taxa de retorno do investimento em escola primária vis a vis a secundária na produtividade da economia americana.

“Não concordo com essa ideia de que não há retorno econômico para a família”, diz Priscila Fonseca da Cruz, presidente da ONG Todos pela Educação. “A alfabetização do adulto tem impacto nas crianças. Ver pais, mães, avós aprenderem influencia, sim, na educação, envolve a família no processo e produz um ganho econômico.” Priscila lembra que várias pesquisas empíricas mostram que a escolarização da mãe, principalmente, tem influência na continuidade e melhoria da qualidade do aprendizado dos filhos. “Os economistas precisam entender melhor esse efeito. O valor que é dado à educação na família quando um integrante deixa de ser analfabeto tem um impacto enorme.” Em sua opinião, esse retorno econômico é pouco considerado por gestores e economistas.

Silva, o pernambucano de Quipapá, aluno do CIEJA de Sapopemba, percebe esse efeito. Ele foi estudar porque, um dia, o filho o desafiou a ler um cartaz na porta da Caixa Econômica Federal. “Se você acha que estou lendo errado, então lê você”, ouviu do seu caçula. “Para mim, faltou o chão.” Silva percebeu que sua relação com os filhos estava sendo prejudicada por ser iletrado. Hoje, lê tudo que lhe cai nas mãos. “Agora conversamos lá em casa de igual para igual. A gente lê as coisas e discute e eu os estimulo a ler também. O resultado a gente sente quando pode ler uma bula de remédio, melhora a saúde, não tem depressão. Isso tudo faz da pessoa um idoso melhor.”

O presidente do Instituto Unibanco e ex-secretário de Educação Continuada do Ministério da Educação, Ricardo Henriques, concorda com Silva: “É claro que, analisando pelo lado das taxas marginais de retorno, elas são função da idade, mas é uma questão de justiça social, de direitos humanos. Se você quer construir uma sociedade contemporânea, deve investir em adultos”.

Henriques cita o exemplo do agronegócio, carro-chefe do PIB nacional nos últimos anos. “Qualquer ganho de alfabetização na população adulta do campo já terá efeito na empregabilidade no agronegócio, área em que a exigência de qualificação é bem maior do que na agricultura rudimentar, na qual, com o avanço da urbanização, estão restando as pessoas analfabetas nos lugares mais distantes.”

Outro risco de reduzir o investimento em alfabetizar adultos é apontado por especialistas: fazer dos jovens iletrados idosos analfabetos. Atualmente, de acordo com o IBGE, 98,5% das crianças de 7 a 14 anos estão na escola. No entanto, a taxa de analfabetismo absoluto, embora em queda, está em 8,7%, e a taxa de analfabetismo funcional cai num ritmo muito inferior. Desde 2003, o Bolsa Família, por exemplo, impõe como condicionalidade para o benefício a frequência à escola. Mas jovens como o padeiro Francisco Eduardo ainda representam, em números absolutos, um contingente significativo na população.

“Se o programa Bolsa Família existe há 10 anos, esse jovem tinha 6, 7 anos. Logo, não era mais para o Brasil ter analfabetos nessa idade, mas eles ainda são muitos”, afirma a ex-secretária de Educação de São Paulo e presidente do Seade, Maria Helena Guimarães de Castro. “Os governos, há algum tempo, passaram a dar pouca importância para a educação de jovens e adultos. Pensei que, com vários programas, permaneceria um estoque de analfabetos acima de 60 anos, mas quando olhamos, principalmente no Nordeste, o residual de jovens entre 17, 18 a 24 anos ainda é alto demais. Me surpreendeu a última Pnad [Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios, do IBGE].”

Apesar de avanços no sistema educacional, diz Maria Helena, o Ceará é um desses Estados com elevado analfabetismo jovem. Um dos motivos dessa “desistência” ou “pouca importância” é a visão econômica. Mas outra razão está subjacente, de acordo com quem acompanha o tema. “A alfabetização de adultos não é uma prioridade, ao lado do ensino na idade certa, porque há um entendimento equivocado desse retorno e também, ou principalmente, porque a visibilidade da educação de adultos é menor do que a de crianças”, afirma a presidente do Todos pela Educação. Ou seja, a tendência de um impacto eleitoral bem menor explicaria uma parte do raciocínio do governador do Ceará. “Para os idosos, tem que ser um direito até morrer, não precisa ser uma política prioritária. Mas para os mais jovens tem que ser. Os níveis de prioridade são diferenciados”, afirma Maria Helena.

O que é preciso fazer? Henriques acredita que o primeiro passo é pensar no processo contínuo da alfabetização. Isso significa investir para evitar, como destacou Naércio Menezes, o abandono do conteúdo por falta de uso. “São dois saltos que precisam ser dados. O primeiro, tirar o indivíduo da inércia, do marasmo intelectual, para alfabetizá-lo. O segundo, bem mais difícil, é fazê-lo continuar os estudos. É preciso, portanto, um trabalho de sedução”, diz.

Depois de longa experiência, Henriques atesta que campanhas, placas de “matrículas abertas” na porta da escola pouco adiantam para seduzir alunos adultos. “É preciso uma busca ativa, procurar as ONGs, as igrejas, entidades da sociedade civil. Por isso o investimento é grande. Dá mais trabalho. É preciso buscar quem “pluga” nesse aluno, para convencê-lo de que vale a pena.” Um aspecto fundamental, segundo ele, é o ensino profissionalizante. “O caminho mais efetivo é mostrar para o aluno que vai mudar o trabalho dele.”

Desde 1934, com o Plano Nacional de Educação, do governo Getúlio Vargas, até o Programa Brasil Alfabetizado, do governo Lula, ou seja, há 77 anos, o país persegue a erradicação do analfabetismo. Sem muito sucesso, como observou Cid Gomes no “Roda Viva”. Mas por um motivo simples, apontado por todos os especialistas: falta continuidade na política educacional brasileira. Mesmo assim, o avanço foi grande, sobretudo, depois da Constituição de 1988, que chegou com o compromisso de acabar com o analfabetismo em dez anos.

“Atualmente, enfrentamos uma grande complexidade na educação de jovens e adultos, pois, quanto mais cai o analfabetismo, maior é a dificuldade de trazer os alunos analfabetos para a escola”, diz Macaé Maria Evaristo Santos, secretária de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação. Muitos desses alunos estão na zona rural, quilombolas, presídios, áreas indígenas, ribeirinhas e outros rincões.

“Tivemos queda no Norte e Nordeste, mas o esforço maior tem sido lá. Não se trata de pensar em retorno econômico. Quem pensa assim tem uma visão estreita. A questão é de direitos humanos”, critica a secretária. Uma das mudanças recentes no Programa Brasil Alfabetizado foi a permissão de constituir turmas com apenas 7 estudantes (em vez de 25, 30, como nas classes do ensino fundamental). O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais de Educação (Fundeb) também ajudou, com aporte de recursos para os municípios constituírem classes de alfabetização. Mais de mil municípios, segundo Macaé, foram beneficiados.

Um deles foi São Paulo. “Teremos receita para o EJA graças ao Fundeb”, diz o secretário municipal de Educação, Antônio César Callegari. “Não se pode olhar a questão apenas com a perspectiva de remuneração do capital, só o ponto de vista humanitário já justificaria o investimento no EJA, mas também há repercussões sociais e econômicas colaterais.” Segundo Callegari, o erro de muitos gestores é tratar adultos como crianças, desde o mobiliário das escolas até o material didático, passando pelo currículo e sistema pedagógico. “É um equívoco também e uma visão rasa apostar na diminuição da demanda manifesta. A demanda cresce quando se oferecer qualidade.”

É o que acontece no CIEJA de Sapopemba. Mais do que ensinar Silva, Costa, Barbosa e Oliveira a ler, o centro é uma escola de inclusão. Talvez possa estar aí uma pista para a mensuração de um retorno econômico do ensino de jovens e adultos jamais aferido por pesquisas. “Eu vou atrás de todo mundo, de jovens que foram expulsos de escolas por causa da idade, completam 16 anos, sem estar na série adequada, e trago para cá. Aqui eles conseguem uma reintegração”, conta a diretora, Thêmis Florentino. Em dez anos no CIEJA, ela já teve muitos alunos alfabetizados que chegaram à universidade. “Eu os inscrevo no Enem e eles conseguem pular etapas.” No entanto, esse resultado educacional ainda não é o retorno que se quer medir na EJA. Há um outro trabalho na escola.

É a inclusão econômica. “Como a grande maioria, quase a totalidade, veio do Nordeste em condições muito precárias, a vida familiar e econômica deles é uma bagunça e aqui oferecemos uma chance de eles entrarem na economia formal”, diz Thêmis. Ela fez uma parceria com o Programa de Educação Previdenciária do INSS e, a cada semestre, os alunos têm palestra sobre previdência social, formalização, microempreendedor individual. Outros palestrantes falam sobre direitos trabalhistas e Justiça gratuita. Resultado: em poucos anos, foi um tal de barraquinha de cachorro quente pagar INSS, mulheres abandonadas com filhos pelos maridos receberem pensão alimentícia e trabalhadores como Costa, que trabalhou a vida toda sem carteira assinada, buscarem seus direitos na Justiça do Trabalho. “O palestrante do INSS não consegue nem tomar uma água e um café de tanto que é a demanda de perguntas e casos.” Sem falar nos acordos do CIEJA com a Defensoria Pública e com a Delegacia da Mulher, pois muitas apanham dos maridos quando decidem estudar. “Essa população chega aqui querendo muito mais do que aprender a ler. Querem cidadania e, a partir do momento que a conseguem, imediatamente devolvem para a sociedade em trabalho, consumo -, a mesma sociedade que negou tudo para eles.”

10. janeiro 2014 por Jorge Félix
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Todo poder emana de onde menos se esperava

(Publicado no jornal Valor Econômico, em 10 de dezembro de 2013. Nota: no capítulo 4 de seu livro, Moisés Naím faz análise interessante e oferece muitos dados sobre as mudanças demográficas no mundo)

Por Jorge Félix

Há 20 anos, um presidente de empresa que fizesse parte da lista das maiores organizações do planeta tinha uma probabilidade de 36% de manter seu emprego pelos próximos 5 anos. Há 15 anos, essa probabilidade havia caído para 25%.

Em 2005, o mandato médio de um CEO nos Estados Unidos havia se reduzido a seis anos.

Na década de 1970, existiam 89 países governados por ditadores. Em 2011, esse número caiu para 22, o que fez com que a democracia chegasse a mais da metade da população mundial.

A Grande Recessão provocou queda de 36,3% na renda do 1% dos americanos mais ricos.

Os Estados soberanos, embora tenham duplicado em número desde o fim da Segunda Guerra Mundial, agora têm como rivais, além de outras nações, organizações transnacionais e não-governamentais. Elas foram imprescindíveis, por exemplo, para a criação do Sudão do Sul, em 2011, o país mais novo do globo.

Nas ruas, manifestações derrubam reajustes de passagens de ônibus, como aconteceu em São Paulo, e ditaduras de décadas.

Com a ajuda da internet – sobretudo, das redes sociais -, também o consumidor impõe sua vontade.

Em suas frequentes viagens pelo mundo, Moisés Naím foi recolhendo dados como esses que, quase sempre, aparecem dispersos no noticiário, nos textos acadêmicos ou no dia a dia desse privilegiado observador das relações internacionais. Editor da revista “Foreign Policy”, ex-ministro da Indústria e Comércio da Venezuela (foi nomeado com 36 anos) e ex-diretor-executivo do Banco Mundial, Naím é constante interlocutor de chefes de Estado, ministros, chanceleres ou CEOs de gigantes multinacionais. Em suas conversas, costumava ouvir reclamações, dificuldades e lamentações daqueles responsáveis por tomar decisões capazes de influenciar um grande número de pessoas. Ou assinar papéis cujo conteúdo obrigava cidadãos a agirem de determinada forma. Aos poucos, Naím percebeu que tantas lamúrias tinham menos a ver com a famosa crise de liderança e muito mais com o desdobramento de uma nova tendência global. “O poder está em degradação”, concluiu.

Nascia assim seu novo livro, “O Fim do Poder” (Editora Leya). Em 392 páginas, Naím faz uma análise sobre o exercício do poder no século XXI. Segundo ele, é tentador avaliar essa tendência apenas pensando em internet ou nos conceitos de relações internacionais (“soft power” contra “hard power”). Mas essas seriam visões incompletas. Naím prefere analisar os micropoderes, a destruição das barreiras tradicionais que protegiam o exercício do poder e as mudanças demográficas, geopolíticas e econômicas que derrubaram a hegemonia de marcas, religiões e partidos políticos por meio de três revoluções. A do “mais”, a da “mobilidade” e a da “mentalidade”. Nesta entrevista ao Valor, concedida, por telefone, de Madri, Naím explica cada uma delas.

Naím

Valor: Por que o poder acabou?

Moisés Naím: O poder não acabou. O que ocorre é que está muito mais difícil exercê-lo. Há hoje diversas ameaças àqueles que exercem o poder, de todas as formas. Ele está sob riscos. Suas barreiras de proteção já não funcionam como antes. O poder está cada vez mais fraco, transitório e restrito. O poder está em degradação. É difícil exercê-lo e muito mais fácil perdê-lo. Ao mesmo tempo, é mais fácil alcançá-lo. Isso faz com que o poder se torne cada vez mais fraco e efêmero. O poder não está mais baseado em tamanho ou na tradição ou nas regras. O poder está se dispersando cada vez mais e governos, exércitos, empresas, sindicatos, partidos políticos estão, cada vez mais, enfrentando surpreendentes rivais muito menores.

Valor: Quais as consequências dessa degradação do poder para a democracia representativa?

Naím: São positivas. Essas mudanças estão permitindo uma maior participação. As pessoas são capazes de interferir nos processos de decisão. Isso pode fortalecer a representação popular. Cada vez que vão às ruas, as pessoas percebem que conseguem enfrentar o poder que antes parecia invencível. Percebem que os poderosos estão em situação vulnerável, estão enfrentando restrições ao exercício do poder, ou seja, há limites para convencer as pessoas a agirem de determinada maneira.

Valor: O poder mais propagado em tempos de crise é o do capital financeiro. O senhor vê ameaça também a essa espécie de poder?

Naím: Sim. Enquanto estamos falando aqui, estão sendo divulgadas novas regras mundiais que estabelecem multas para as operações financeiras. Evidentemente, ainda há muito poder concentrado no capital financeiro. Mas sua atuação está sendo reduzida por uma nova mentalidade. Até mesmo o tão mencionado 1% dos mais ricos dos Estados Unidos não está imune às repentinas mudanças de riqueza, poder e status. Essa parcela perdeu, segundo pesquisas, 36,3% de sua renda. Apesar de a desigualdade de renda ter aumentado muito, a Grande Recessão também teve um efeito corretivo, pois afetou mais que proporcionalmente a renda dos ricos. Outra questão é que os atores que atuam no setor financeiro são outros. Hoje, os bancos tradicionais dividem mais o poder com novos e ágeis “hedge funds’.

Valor: No livro, o senhor fala de revoluções que implicam a degradação do poder e que tiveram tanta influência nesta tendência quanto a internet. Poderia resumi-las?

Naím: São três revoluções. A revolução do “mais”, da “mobilidade” e da “mentalidade”. A primeira se dá porque nunca viveram tantas pessoas no planeta. De 1950 a 2050, a população global terá quadruplicado. Além disso, essa população provoca o aumento de tudo: número de países, crescimento acelerado de todos os indicadores relacionados à condição humana – expectativa de vida, nutrição, educação, renda, violência, enfim, tudo. É uma era de abundância. Esse aumento populacional, assim como sua estrutura etária, distribuição geográfica, longevidade, saúde, seus maiores níveis de informação e educação e consumo, têm amplas repercussões na obtenção e no uso do poder. A segunda revolução se dá porque essas pessoas têm mais facilidade para circular e isso dificulta o controle sobre elas. Essa mobilidade altera a distribuição de poder tanto dentro de cada comunidade como entre os diferentes grupos sociais. Segundo a ONU, há 214 milhões de migrantes no planeta, um crescimento de 37% nas últimas duas décadas. A terceira revolução, da “mentalidade”, é uma espécie de consequência das duas primeiras. A partir do momento que o indivíduo tem mais informação, mais conhecimento, mais saúde, tem também mais expectativa. Tem outra visão do mundo.

Valor: Isso explicaria o momento de manifestações e protestos?

Naím: Com essas revoluções surgiu uma nova classe média em alguns países. A questão é que, enquanto nos países em desenvolvimento a classe média está se expandindo, na maioria dos países ricos ela vem encolhendo. E tanto as classes médias que crescem como as que encolhem alimentam a turbulência política. As classes médias acossadas tomam as ruas e lutam para proteger seu padrão de vida, enquanto as classes médias em expansão protestam para obter mais e melhores bens e serviços.

Valor: E colocam o poder tradicional e institucional em xeque.

Naím: Cada uma dessas revoluções faz com que as barreiras que permitem aos poderosos se protegerem de novos rivais e preservar o poder já não os protejam tanto quanto antes. As barreiras estão cada vez mais fáceis de derrubar, contornar e sabotar. Quanto mais contato temos uns com os outros, mais são ampliadas as aspirações. Os efeitos da revolução da “mentalidade” sobre o poder têm sido variados e complexos.

Valor: Os poderosos estão com medo ou não percebem o que está se passando?

Naím: Alguns não percebem. Vivem um momento ilusório ou presos a padrões que estão sendo derrubados. Mas muitos governantes estão atentos perceberam as mudanças.

Valor: Por que o senhor acredita na relegitimação dos partidos políticos?

Naím: A tendência é para os partidos mais tradicionais perderem o poder e serem substituídos por partidos que surgirão com as transformações, estarão mais ligados ao novo momento e, portanto, capazes de restabelecer de certa forma o diálogo e a representatividade democrática. Embora as imperfeições dos partidos políticos sejam muitas vezes inquestionáveis, seu desaparecimento implica a perda de importantes reservatórios de conhecimento muito especializado, que não é fácil replicar pelos novos grupos políticos ou mesmo pelos indivíduos carismáticos recém-chegados à política.

Valor: O que os partidos deveriam fazer para ter esse reencontro com o eleitor?

Naím: Os partidos políticos devem restabelecer a relação com os movimentos sociais, as organizações não governamentais, instituições nas quais o cidadão ainda encontra consonância com suas aspirações em defesa de temas como serviços públicos, liberdade de expressão, ambiente. Essa agenda de aspirações deve ser incorporada aos partidos e ao surgimento de novas lideranças em algum momento.

Valor: O senhor diz que “os grandes de sempre” perderam o poder para os micropoderes. O jornalismo chamado de ativista seria um micropoder?

Naím: Sem dúvida. Julien Assange, Edward Snowden são exemplos desse micropoder. A Wikileaks dificulta o exercício do poder. Em poucos setores o poder mudou de forma tão drástica e rápida quanto no da informação e das comunicações. Mas o micropoder não está apenas na capacidade de desvendar, revelar. Ele é concorrente dos “grandes de sempre”. Exemplo melhor são as igrejas pentecostais. Elas também provocam uma degradação do poder tradicional e ajudam a confirmar a tendência de uma reconfiguração mundial. Os micropoderes limitam a atuação dos mega-atores.

Valor: Se todos têm chances mais igualitárias, o senhor concordaria com a tese do “mundo plano”, de Thomas Friedman?

Naím: Há similaridade. Mas minha análise dos micropoderes tem outras características.

Valor: Seu outro livro, “Ilícito”, de 2005, era uma análise sobre o poder do crime organizado, da pirataria, da economia subterrânea. Esse poder também está enfrentando dificuldades?

Naím: Sim, claro. Veja, por exemplo, os cartéis do México. Eles perderam muito o poder. Se, por um lado, o crime também se beneficia de um avanço tecnológico, por outro sofre concorrência, como todos os que têm seu poder degradado.

“O Fim do Poder”

Moisés Naím. Tradução: Gil Reyes. Editora: Leya. 392 págs., R$ 49,90

10. dezembro 2013 por Jorge Félix
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