Rei Lear e o envelhecimento

Por Jorge Félix

juca

Rei Lear é uma das peças mais citadas em textos sobre o envelhecimento. A montagem de Juca de Oliveira é uma oportunidade para aqueles interessados em conhecer a obra, uma vez que a chance é mínima de assistirem uma encenação clássica, completa, algo distante da realidade teatral brasileira, já que dependeria de recursos para mais de 22 personagens com fala! William Shakespeare (1564-1616) oferece oportunidades de incontáveis leituras. O monólogo de Juca, portanto, é apenas uma delas e atende perfeitamente a quem procura conhecer a essência de uma das quatro grandes tragédias do autor inglês.

A história do soberano, que, aos 80 anos, decide dividir o seu reino entre as filhas é considerada uma reflexão sobre a velhice. Mas a peça de 1606 é, acima de tudo, uma grande discussão sobre o exercício do poder. A lição maior da peça: o bom governante é obrigado a fazer sacrifícios, abrir mão de sua vida pessoal, de desfrutá-la como os outros mortais o fazem em nome de uma institucionalidade. Ou seja, em benefício da comunidade. O poder prescinde direitos e deveres.

O grande erro de Lear, portanto, foi acreditar que poderia apenas usufruir das benesses do trono sem amargar as agruras, o fardo, enfim, a responsabilidade. Ao transferir as obrigações às filhas – duas das três, como se sabe – , o rei deixou-se levar pela ilusão de um poder sem restrições a quem o exerce. Pensou em manter seu exército, seus serviçais, suas regalias, “o nome e a pompa”, como ele mesmo diz,  e, como se existisse almoço grátis, sem a necessidade de dar satisfações ou cumprir a liturgia do cargo.

Foi punido pela ganância, pelo individualismo e pela falta de solidariedade das filhas Goneril e Regan. É nesta relação intergeracional que a peça oferece material para a reflexão sobre o envelhecimento. As herdeiras de Lear recusam qualquer tipo de pacto geracional, semelhante ao acordo do Estado Previdenciário do pós II Guerra. Aqueles que têm saúde para trabalhar pagam pela sobrevivência daqueles que já não podem mais labutar. Na peça, porém, as filhas são envenenadas pela perspectiva de poder. Uma perspectiva infinita.

Goneril e Regan recusam-se a sustentar o pai, manter seu padrão de vida, com medo de perder o poder. Deixam Lear sob a tempestade, como mendigo. É neste momento da peça que ocorrem semelhanças com a sociedade em processo de envelhecimento do século XXI. Ao contrário do que escreveu Juca de Oliveira no programa de seu Lear, os brasileiros, de forma alguma, expulsam de casa seus pais idosos para “encarcera-los em asilos”. O asilamento também não é sinônimo de abandono ou de maus tratos, sobretudo, nos países desenvolvidos.

Os idosos brasileiros vivem em inúmeros arranjos parentais ou de proximidade. Apenas 1% deles vive em asilos (até porque o governo federal só mantém um asilo público no país). Isso não quer dizer, no entanto, que os idosos brasileiros em convivência com suas famílias estejam imunes ao sofrimento de Lear. A maioria dos casos de agressão e maus tratos a idosos tem como criminosos os familiares.

Grande parte dos indivíduos da sociedade contemporânea também penaliza seus idosos em busca de ampliar o poder que têm aos olhos dos outros. Se na sociedade elisabetana o poder era oriundo da terra e dos exércitos, no capitalismo do século XXI sua manifestação é simbólica. E esses símbolos cristalizam-se na sob a  forma dos mais variados bens de consumo. Na sociedade contemporânea, consumir é ter poder. Não é o “sim, nós podemos”. É o “nós consumimos, logo, nós somos e podemos”. O indivíduo, assim, persegue esse poder com a mesma ética ou moral das monarquias europeias descritas por Shakespeare.

É em nome deste “poder de consumir” que Goneril e Regan, se vivessem hoje, deixariam o pai à mingua. Se não à mingua, a uma condição muito mais perversa. As famílias, embora mantenham seus idosos sob o mesmo teto, ou um lar de parentes, o excluem da sociedade de consumo. Do ponto de vista da família como unidade orçamentária, o consumo é um privilégio dos filhos e netos. Estes moram bem, se vestem bem, têm acesso às tecnologias, planos de saúde, enfim, as regalias do poder, o idoso é, muitas vezes, visto como um não-consumidor voluntário. “Papai não liga mais para isso, não”, costumam repetir, como se conforto, beleza, prazer fossem exclusividade da juventude.

Há famílias brasileiras nas quais filhos e netos têm acesso a todo tipo de consumo supérfluo, mas o idoso vive sem plano de saúde, sem viagem, sem roupas novas, sem aparelho celular. Os não-idosos estabelecem que o idoso “não precisa disso” e ponto final. Muitas vezes essas prioridades de despesas são estabelecidas com os recursos da própria pessoa idosa. Tal como em Lear. O idoso, por sua vez, vive sob essa violência consentida por uma abnegação em nome do bem-estar dos filhos e netos fazendo jus à hipócrita frase de Edmundo, personagem calhorda da peça de Shakespeare, que diz que o jovem só sobe quando o velho cai.

 

19. julho 2014 por Jorge Félix
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A “Era do medo”, segundo o historiador Tony Judt

(Publicado no jornal Valor Econômico, em 2 de julho de 2014.)

Por Jorge Félix

O século XXI começou com ataques terroristas, guerras, crise financeira e insatisfação popular capaz de mobilizar multidões por todo o globo ao dispor do potencial da internet. A instabilidade econômica, a vida incerta, o risco de desfiliação profissional, o individualismo e um nacionalismo revigorado em vários países justificam identificar os tempos atuais, na opinião do historiador inglês Tony Judt (1948-2010), como a “Era do Medo”. Sua constatação faz eco com Robert Castel e Zygmund Bauman, entre outros sociólogos contemporâneos.

Para Judt, a compreensão deste presente e qualquer possibilidade de delinear o futuro com alguma precisão depende de nossa capacidade de desvendar a história intelectual e a ética dos pensadores. Vivemos um período de batalha entre democracia e fascismo? Esquerda versus direita? Quem foram os vencedores do século passado e como essa vitória invadiu o século XXI? Por muitos anos essas questões inquietaram Judt e alimentaram a vontade de escrever um livro sobre a trajetória do pensamento das décadas anteriores.

Sua intenção era fazer um balanço das responsabilidades, contribuições, dissimulações e falhas de uma geração cujas ideias moldaram e dominaram o século. Foi uma geração que atingiu a maturidade intelectual ou acadêmica quando Hitler chegou ao poder e foi atraída para o turbilhão político e histórico. Uma geração que teve que tomar partido. Vítima da esclerose lateral amiotrófica que o matou aos 62 anos, Judt foi impossibilitado de escrever o livro que um dia imaginou sobre seu principal tema de estudo. Mas, com a ajuda do professor Timothy Snyder, por meio de conversas gravadas, conseguiu deixar este “Pensando o Século XX”.

Provocado por seu entrevistador, ele parece estar numa conversa num café falando sobre temas amenos, porém, a cada observação sua, a inquietação abate a harmonia das convicções moldadas por uma história que nos foi ensinada. O que importa é que “compreendamos os riscos de entender errado, em vez de nos dedicarmos com entusiasmo ao negócio de entender direito”. Judt lembra que os custos da História são sempre atribuídos a outros e, muitas vezes, a outro tempo e outro lugar.

Ao repassar o pensamento do século, Judt revê sua própria biografia e construção intelectual. Esse balanço ganha sabor nos relatos de seus contatos com os próprios analisados, formuladores do pensamento do século XX.

Eric Hobsbawm é personagem constante, assim como Leszek Kolakowski. Suas reflexões particulares sobre temas como “a banalidade do mal”, de Hannah Arendt, ou o “liberalismo do medo”, de Judith Shklar, surgem com insights de um historiador capaz de legar o inesgotável “Pós-Guerra”.

Judt revisita seu passado marxista e descobre: “Sempre fora o Karl Marx analítico, o comentarista político e não o prognosticador revolucionário, que mais me atraíra”. Por outro lado, acredita que “o colapso da social- democracia como modelo, como ideia, como narrativa grandiosa, na esteira do desaparecimento do comunismo, é não só infeliz mas injusto. É também uma má notícia para os liberais, uma vez que tudo o que pode ser dito contra as maneiras sociais-democratas de conceber os assuntos públicos também pode ser dito contra os liberais”.

Em resumo, a grande questão ética do século teria sido escolhas certas, mas que de forma implícita envolveram rejeitar outras opções cujas virtudes fora um erro negar por puro capricho ideológico. Palavras de um Judt que, no fim da vida, definiu-se como “pluralista”.

Em seu julgamento da virada do século, Judt conclui que os grandes vencedores do século XX foram os liberais do século XIX. Seus sucessores criaram o Estado de bem-estar social. Democracia, alta tributação e intervencionismo permitiram garantir a coesão social sem recorrer à violência ou à repressão.

“Seríamos tolos se abandonássemos de forma descuidada essa herança”, diz. Fomos. No século XX, as “sociedades superprivatizadas” prevaleceram e colonizaram grande parte do pensamento até a crise de 2008. Ele prevê: “A escolha que enfrentamos na próxima geração [...] é a política de coesão social em torno de propósitos coletivos contra a erosão da sociedade pela política do medo”.

Judt alerta que a “exploração demagógica do medo” seduziu os eleitores americanos por oito anos, durante o governo Bush, com a ilusão de que o país pudesse se transformar em um condomínio fechado para o mundo. Esse seria o risco da democracia do século XXI e o desafio para aqueles que se propõem a pensar.

Pensando o século XXI

Tony Judt, com Timothy Snyder.

Tradução: Otacílio Nunes.

Editora: Objetiva. 440 págs., R$ 49,90

03. julho 2014 por Jorge Félix
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Economistas de presidenciáveis debatem Piketty

(Publicado no jornal Valor Econômico em 16 de maio de 2014)

Por Jorge Felix

Não poucos economistas devem ter dedicado seu tempo, nas últimas semanas, para decodificar uma fórmula simples: r > g. Essa simplificação para explicar a desigualdade social no mundo é o resumo do livro “O Capital no Século XXI”, que será lançado no Brasil pela Intrínseca e já tornou-se uma sensação. Mais do que desvendar a fórmula, a pesquisa, a metodologia e os conceitos muito particulares do autor, o economista francês Thomas Piketty, professor da Escola de Economia de Paris, era preciso entender o porquê de, depois de um trabalho acadêmico de fôlego, no qual analisa a concentração de renda desde o século XVIII usando como fonte as declarações de imposto de renda em mais de 20 países, Piketty apresenta como principal solução um imposto sobre fortuna de âmbito global com alíquota de até 80%. Só assim, segundo ele, o “r” deixaria de ser maior que o “g”, ou seja, o retorno do capital ficaria abaixo do índice de crescimento (growth) do Produto Interno Bruto (PIB) e a riqueza seria melhor distribuída.

A despeito da controvérsia entre economistas sobre métodos e conceitos, mais intrigante ainda é compreender por que a ideia do imposto foi tão festejada no meio acadêmico americano, com elogios de vários Prêmios Nobel de Economia de diferentes escolas de pensamento e até mesmo entre os políticos, incluindo senadores do Partido Republicano. Se, para Piketty, sua ideia é uma “utopia útil”, no Brasil, na opinião de analistas, tem potencial de alimentar o debate eleitoral deste ano.

O imposto sobre fortunas sempre esteve na pauta do Partido dos Trabalhadores (PT). O apelo da proposta, em um país ainda tão desigual, poderia ser tão sensível ao eleitor quanto foi a outra constatação de Piketty, que 1% dos ricos americanos detém 50% da riqueza dos EUA – logo transformado em lema do movimento Occupy Wall Street, entre outras manifestações a reboque do estouro da bolha das hipotecas subprime. Exagero? Talvez. Mas desde o lançamento do livro em inglês, muitos estudantes estão nas universidades debruçados sobre o r $> g em grupos de pesquisa e aulas de economia. Pode não ser uma surpresa, tamanho o sucesso do best-seller, se a fórmula de Piketty aparecer em cartazes de manifestações.

O livro está na programação de leitura do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Sem um conhecimento dos detalhes da tese de Piketty, Mantega disse ao Valor que a definição da tributação ideal depende da estrutura vigente em cada país. “Tem que ser analisado de acordo com a realidade de cada um, não há uma estratégia única”, afirmou a respeito do imposto global. Em sua opinião, há duas maneiras de se enfrentar o problema da distribuição de riqueza. Uma é simplesmente não alterar o ganho de ricos e pobres, para depois acertar isso com a tributação. A outra é mudar a estrutura produtiva do país, de modo que os trabalhadores já ganhem direta e indiretamente mais do que os mais ricos.

“Quando falo de trabalhadores, não me refiro só à base da pirâmide, mas também à classe média de forma geral. Estamos falando de ascensão social generalizada. O importante não é tanto a tributação, mas como o Estado direciona os recursos tributários.” Mantega refere-se às transferências de recursos do Estado e de investimentos, em especial para a educação: “Quanto mais educação, mais renda”.

Piketty apresenta como uma das principais soluções um imposto sobre fortuna de âmbito global com alíquota de até 80%

Na avaliação do ministro, a redução da desigualdade de patrimônio pode se dar no Brasil com uma política econômica que concomitantemente aumente a produção – portanto, a riqueza – e gere muitos empregos, de modo a elevar o poder de barganha da força de trabalho. “Deve-se combinar políticas de aumento da produtividade, para compensar aumento de salários que advém do grande volume de empregos, com programas sociais específicos, que elevam imediatamente o nível de renda da população, como é o caso do Bolsa Família, entre outros programas. É exatamente o que fizemos no Brasil nos últimos anos”, afirma, sem comentar a tributação de fortunas.

Nas visões de economistas ligados às principais candidaturas de oposição, a proposta do imposto progressivo de Piketty é vista com ressalvas. Responsável pelo programa econômico do pré-candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga aguardava a publicação em inglês há algum tempo. Fez até uma pré-encomenda em uma livraria virtual. A repercussão, no entanto, chegou antes do livro. Depois de ler numerosas resenhas, Armínio concluiu que o livro tem o mérito indiscutível de mobilizar o debate econômico e político em torno do tema da desigualdade social. No entanto, aponta “com veemência” dois aspectos que, aparentemente, mereciam mais destaque. “O primeiro é a importância de o Estado construir a base de oportunidades iguais para o indivíduo. E o Estado brasileiro, sem dúvida, está devendo isso, em saúde, educação, transportes públicos, todos os serviços.”

O segundo é a obrigação de o Estado corrigir aquele “enriquecimento por meio de roubo, lobby, captura do Estado, monopólio”. Nesse aspecto, para Armínio, a parte tributária é só um ponto da questão. “Essa correção, sem dúvida, não está ocorrendo no Brasil”, diz. “Há inúmeros aspectos a considerar sobre redesenhar o sistema tributário.”

Eduardo Giannetti, um dos principais formuladores econômicos da candidatura de Eduardo Campos, da coligação PSB-Rede Sustentabilidade, aponta na mesma direção. “O que entendo como justiça é uma robusta paridade inicial de oportunidades e as diferenças que surgem a partir disso devem ser respeitadas e são saudáveis”, diz, destacando também que ainda não conseguiu ler o calhamaço de Piketty. Giannetti deixa bem claro sua posição sobre o imposto sobre fortunas: “Taxar a riqueza de um empresário, construída ao longo da vida, sou contra. Sobretudo em condições de igualdades de oportunidades iniciais que o Estado deve oferecer. Mas taxar a herança, sou a favor. A transição não faz parte do direito de propriedade.”

Giannetti alerta que a economia neoclássica sempre defendeu essa taxação. Vai aos “Manuscritos Econômicos e Filosóficos”, escritos por Karl Marx em 1844, para sustentar que, apesar da tentativa da imprensa britânica e americana de rotular Piketty como marxista, ele não tem nada de marxista. “Para Marx, a distribuição de renda não era um problema, ele diz que o aumento forçado de salário não representa mais do que um pagamento melhor para escravos, portanto, essa taxação não resolve o problema do capitalismo do ponto de vista marxista.”

Giannetti ensina que a ideia de tributar a herança é do liberal inglês John Stuart Mill (1806-1873). Em 1848, o ano das revoluções na Europa, Mill escreveu em “Princípios da Economia Política” que só os países atrasados estariam preocupados com o crescimento econômico, os avançados deveriam se dedicar a distribuir a riqueza.

O imposto sobre grandes fortunas entrou na agenda brasileira em 1989, quando o então senador Fernando Henrique Cardoso apresentou projeto de lei (até hoje em tramitação) para aplicar pequena alíquota sobre a riqueza. Em sua concepção, alíquota alta não faria sentido porque, como a cobrança é anual, o efeito cumulativo do tributo acabaria com a fortuna. Também sempre considerou sua proposta uma “utopia útil” diante da reação ideológica e, anos mais tarde, já fora do poder, passou a defender imposto sobre herança. No Brasil, esse imposto existe em nível estadual – o Imposto sobre Transferência por Causa Mortis e Doação (ITCMD) -, com alíquota de 4%. Nos últimos anos, os governos estaduais intensificaram a fiscalização e passaram a explorar mais essa fonte de arrecadação com uma operação malha fina, principalmente em São Paulo.

O alvo de FHC sempre foi menos ideológico e mais estratégico. Ele pretendia, com a lei, estimular as elites financeiras a fazerem doações a causas, projetos e universidades, principalmente. O ex-presidente sempre cita os exemplos de doações bilionárias de Warren Buffett e George Soros e já disse que, no Brasil, isso é impensável. “A sociedade contemporânea, entre outros motivos de insatisfação, está cada vez mais irritada com as desigualdades”, diz Fernando Henrique. “Está na hora de buscar sinais na direção da solidariedade e de maior igualdade, o que pode ser feito com a destinação das receitas para, por exemplo, bolsas escolares para pessoas de famílias com poucos recursos.”

Em entrevista ao Valor, em julho do ano passado, antes de seu livro ser publicado na França, Piketty afirmou que o Brasil tem todas as condições de adotar o imposto sobre fortunas. Ele recusa a hipótese de que a taxação provocaria fuga de capitais. “Esse é um problema muito sério para os países pequenos. Mas, para os países grandes – como os EUA, a China, o Brasil, e a União Europeia -, é possível adotar uma política fiscal redistributiva. Basta ter vontade política.” Piketty sugere uma troca mundial de informações dos fiscos que poderia ser cláusula de tratados comerciais bilaterais, por exemplo.

Em seu livro, Piketty faz uma conceituação própria do que entende como “capital”. Esse foi um dos principais pontos de divergência entre ele e os economistas marxistas, como François Chesnais e Michel Husson. Para eles, a redefinição de capital do autor é inconsistente teoricamente. O imposto progressivo de Piketty incidiria sobre todos os ativos imóveis, profissionais e financeiros (líquidos de obrigações), realizados diretamente por pessoas físicas. “Essa é a única maneira de envolver de forma correta as maiores fortunas que muitas vezes pagam impostos ridículos”, diz o autor.

Leitor de Piketty em francês – comprou o livro no ano passado em viagem a Paris -, o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira elogia o economista e diz que, no mínimo, seu trabalho pode ajudar o Brasil a colocar na agenda da reforma tributária o imposto progressivo. “Há mais de 20 anos se discute reforma tributária no Brasil, sempre com o foco no ICMS, isso é um escândalo que não se resolve.” Bresser-Pereira lembra que, enquanto a arrecadação era destinada a gastos sociais, a ausência da progressividade era compensada socialmente. Mas a realidade hoje é bem diferente. “O Estado está longe de oferecer condições iguais, isso poderia ser mitigado com a progressividade, mas o Brasil é tão conservador, que acho que nem o PT tem coragem de fazer isso.”

Bresser-Pereira desconfia da fórmula de Piketty (r>g) e diz que o crescimento já foi menor que o retorno do capital, em determinadas épocas, e houve distribuição de riqueza. “O fato de ele ter feito sucesso nos EUA pode estar menos relacionado à pesquisa e mais à sensibilidade da sociedade americana com a desigualdade neste momento. Os EUA, hoje, são uma estrela solitária em desigualdade.”

Outro leitor de Piketty, em francês, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo considera a ideia do imposto global uma “utopia” perfeitamente de acordo com o capitalismo do século XXI. “Poderia fazer numerosos reparos teóricos ao trabalho, mas isso seria menos importante. O que o Piketty aponta é que o neoliberalismo e a mundialização tiraram do Estado o poder fiscal, só um tributo global faz sentido na dinâmica contemporânea. Isso é ingênuo, mas o ingênuo aí é um elogio. As pessoas precisam ser mais ingênuas. Pedir o impossível”, diz.

Belluzzo lembra que mesmo a crise financeira deflagrada em 2007 foi incapaz de empurrar o mundo para uma reforma reguladora e deixou a economia funcionando na mesma lógica. Tudo porque consideraram a regulamentação impossível. “Isso significou uma queda imensa de participação dos salários no PIB dos EUA. Talvez a tributação possa ser eficaz, mas mais eficaz seria uma regulamentação, o que o Piketty deixou de fora, explorou pouco, como bem apontou o Paul Krugman em resenha no ‘New York Times’.”

30. maio 2014 por Jorge Félix
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Piketty e o Financial Times

Por Jorge Félix

“A economia não é mais que um ramo das Ciências Sociais, ao lado da História, da Sociologia, etc. Se a crise [atual] puder ter o efeito de fazer os economistas mais humildes e lembrá-los desse simples fato, já não será tão mau”, disse Thomas Piketty, quando o questionei (em entrevista ao Valor, em 2013) sobre qual seriam os efeitos da crise sobre o pensamento econômico.

Acredito que, depois deste episódio do Financial Times, a observação do autor de “O Capital no século XXI” serve também para jornalistas. Se economistas como Robert Solow, Paul Krugman, Joseph Stiglitz fizeram críticas muito cautelosas ao livro {inclusive, Solow alertou que “ficaríamos ainda muitos anos debruçados sobre tudo isso que está no livro”}, como um jornalista pode ter a pretensão que, depois de uma leitura rápida e superficial, sem o menor tempo de reflexão, desmentirá as afirmações de um acadêmico como Piketty? Leviandade.

Pior. Jornais brasileiros e no exterior reproduziram na íntegra a matéria do FT aceitando, portanto, a tese do jornalista. É um fato para nós, jornalistas de economia, refletirmos. Afinal de contas, todos nós assistimos e aplaudimos “Inside Jobs”. Se é que um dia fomos, já deixamos de ser ingênuos depois de ver o documentário. A resposta de Piketty nem precisava ter sido tão detalhada, bastava dizer que o FT “fez a crítica pela crítica”.

30. maio 2014 por Jorge Félix
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Stiglitz, Piketty e o debate político nos EUA

Por Jorge Félix

As pessoas pensam que o maior divulgador de Thomas Piketty foi Paul Krugman. A resenha enorme que o Prêmio Nobel escreveu sobre o livro “Capital no século XXI” no NYT, republicada em quase todos os grandes veículos do planeta, levou a essa conclusão. Mas o grande divulgador de Piketty é Joe Stiglitz.

Quando publicou seu artigo na Vanity Fair, em maio de 2011,falando dos 1% x 99% nos Estados Unidos, Stiglitz estava “fortemente”, na palavra dele, baseado na pesquisa de Piketty. Não. Stiglitz não roubou a ideia. Sempre fez menção ao francês. Mas o que é um economista francês para as lentes preconceituosas? Ninguém deu bola. Ninguém deu bola aos cartazes de “I´m 99%” do Occupy Wall Street a partir de quatro meses depois do artigo da Vanity.

Ninguém reparou também que Stiglitz insistiu em propagar a tese. Ele abre seu livro “The price of inequality”, publicado em 2012, com o trabalho de quem? Acertou, leitor. Piketty. A nota número 2 do capítulo 1 ocupa uma página inteira no fim do livro e relaciona vários trabalhos do economista francês e de seu parceiro acadêmico Emmanuel Saez. Stiglitz diz que confia no trabalho “Income Inequality in the United States, 1913-1998″, publicado pelo Quartely Journal of Economics em 2003.

Esse trabalho já circulava, inclusive no Brasil, por várias universidades, era citado timidamente em artigos, inclusive de jornais e já causava arrepios nos economistas neoclássicos. Esse debate é menos relevante agora. O importante, e talvez consequente, é que a dupla Stiglitz e Krugman mostram com o sucesso Piketty que adotaram uma estratégia marxiana de praxis.

Se o economista precisa reconhecer, com humildade, como me disse Piketty, em entrevista que fiz com ele em 2013, que é “apenas” um cientista social e se, como disse Marx, o cientista social precisa partir para a praxis, foi exatamente isso que fizeram Stiglitz e Krugman. Os dois catapultaram a tese de Piketty ao centro do debate político mundial. Nos EUA, constrangem seus opositores do Partido Republicano – a ponto de senadores republicanos terem que adotar a velha estratégia do marketing político do “me too”.

Debatam o quato quiserem o r > g. Suas possibilidades ou inviabilidades matemáticas. Isso pouco interessa agora. O debate, daqui para a frente, é político. Não baseado na fórmula de Piketty, mas em sua filosofia e inquietação: a desigualdade social é crônica. Como ele diz no livro, nem o intervencionismo nem o liberalismo a reduziu significativamente. “O máximo que se pode dizer é que a intervenção estatal não fez mal algum”, escreve ele, entre outras milhares de frases provocativas.

Não há mais espaço para economia de “contos de fadas” ou “catastrofistas”. Há espaço para alguém que apareça no debate político global com alguma proposta concreta para reduzir a desigualdade entre quem anda de transporte público e as “elites voadoras”. Tudo isso foge a qualquer tentativa de emprestar consistência teórica ao debate. O debate que Piketty abriu é totalmente político. E um desafio maior em um ambiente político global sem lideranças políticas.

16. maio 2014 por Jorge Félix
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